A culpa não é de quem quer adoptar

A propósito do Plano de Intrevenção Imediata, que faz o retrato da situação das mais de nove mil crianças institucionalizadas em Portugal, fez-se grande alarido das 550 crianças «prontas» para adoptar mas que, nas palavras da secretária de Estado Adjunta e da Reabilitação «ninguém quer».

Não faltaram logo os que vieram apontar o dedo aos quase três mil casais que esperam e desesperam, como se fossem uns egoístas, que narcisicamente procuram apenas meninos loiros de olhos azuis. A conversa é antiga, e de cada vez que a oiço sinto vontade de deitar as garras de fora. Pela simples razão de que é uma ideia feita que se vai repetindo, sem se pensar no que se diz.

Para desconstruí-la basta parti-la em bocadinhos e analisá-la, e nem sequer é preciso ser à lupa:

1. É mais do que legítimo que os pais «peçam» o filho com que sonharam. Seja a Deus, à Natureza, ou à Segurança Social. É sinal de que não sofrem de nenhuma perturbação mental.

2. A ideia de que os casais adoptantes teriam de ambicionar ter fi-lhos com problemas revela que implicitamente lhes estamos a dizer que a sua «infertilidade» deve ter um preço. Subjacente está a ideia de que, se não os podem gerar, por alguma razão é! De que, pelo menos, não merecem um filho igual aos nossos.

3. Coisa diferente é apresentar a estes casais crianças, que não as sonhadas, e perguntar-lhes, sem juízos de valor, se são capazes de as aceitar. Ajudá-las a conhecer e a apaixonarem-se por aqueles meninos, da mesma maneira que se ajudam pais biológicos a aceitar um bebé que nasce com problemas. Quando há o cuidado de fazer as coisas assim, dizem os especialistas, a generosidade é enorme.

4. Mas o que me indigna é que ninguém pergunte antes quem é responsável pelo facto de ter «expirado o prazo» de adoptabilidade de tantas crianças? Destas 500 e de centenas de outras. Quem explica porque foram entregues ao Estado com dias ou meses, para só estarem «disponíveis» anos e anos depois? Se encontrarmos a resposta a esta questão, podemos exigir decisões mais corajosas e mais rápidas. Para que cada criança cresça numa família que é realmente.

in destak.pt

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