A sexualidade

A sexualidade não é assunto da adolescência ou da idade adulta, existe desde que nascemos. Por isso, aprenda a lidar com ela, na relação com os seus filhos, desde os primeiros meses.


Para muitos pais, a linha de demarcação entre a infância e a idade adulta é quase palpável. Em crianças põem-se lacinhos nos cabelos às meninas, dão-se carrinhos aos rapazes, mimam-se os rebentos com beijinhos e afagos. Um belo dia, a puberdade anuncia-se como um vendaval: às meninas acontece a menstruação e aos rapazes a ejaculação. Está na hora de explicar que os bebés não vêm com a cegonha, nem foram semeados da mesma forma bucólica com que as abelhinhas vão espalhando pólen pelas flores.

Ao contrário do que é ditado pelo senso comum, a sexualidade não é a fase que estabelece a fronteira entre a infância e a idade adulta. "Ela está presente desde o nascimento", esclarece Milice Ribeiro dos Santos, professora na Escola Superior de Educação do Porto (ESE) e vice-presidente da Associação para o Planeamento da Família (APF).

Na verdade, na opinião de Carla Serrão, psicóloga voluntária da APF, "o facto de não haver uma conceptualização correcta leva a que as pessoas confundam sexualidade com sexo". De acordo com a definição da Organização Mundial de Saúde (OMS), a sexualidade é "uma energia que encontra a sua expressão física, psicológica e social no desejo de contacto, ternura e às vezes amor".

Apesar da definição da OMS, a sexualidade é encarada, na maioria das vezes, "como algo escondido", resume Milice Ribeiro dos Santos. Ao longo do crescimento, mesmo sem se darem conta, os educadores vão sinalizando o caminho dos mais pequenos com uma diversidade estonteante de semáforos amarelos e vermelhos. Nas intervenções que faz nas escolas, Carla Serrão vai tomando nota destes alertas e tentando desconstruí-los, junto com os pais e os professores. "Os sinais vermelhos acontecem sempre que os pais ruborizam quando os filhos querem falar da sexualidade, quando respondem "agora não", quando perguntam "já tens namorado?", enuncia.

Como numa espécie de contagem decrescente, os pais vão queimando etapas, preparando o momento em que irão ter a tal conversa séria com os seus filhos sobre tudo o que têm que saber sobre a sexualidade, dos perigos da gravidez às mudanças no corpo. Ou, em alternativa, vão confiando na informação paralela: televisão, amigos, escolas, livros, revistas, publicidade. Afinal, não há razão para um adolescente não estar informado, certo? Nem por isso. Milice Ribeiro dos Santos defende que "educar é um processo que tem início com o nascimento e portanto a educação sexual deverá ser integrada desde esse momento".

No resto, como tudo, terá que haver sensibilidade e bom senso. Devem os pais tomar banho com as crianças, é normal ter vergonha do meu filho, não me devo importar que ele ande nu pela casa e como devo reagir quando ela ou ele começarem a esconder o corpo? Não há uma resposta-padrão para as perguntas que, consciente ou inconscientemente, os pais vão colocando a si mesmos ao longo dos anos. Como afirma Carla Serrão, "isso tem a ver com o desenvolvimento da cultura familiar". Os pais não se devem sentir impelidos a tomar banho com os seus filhos, se não se sentem à vontade, só porque a maioria dos amigos diz fazê-lo. Mas se se sentirem bem, sim, devem fazê-lo sem dramas.

A importância do chichi e do cocó

Dado que não somos seres assexuados, logo quando nascemos apresentamo-nos perante o mundo com o pacote completo. Todas as dimensões da sexualidade (de cariz biológico, psicoafectivo e social) estão existentes na criança. Como explica Carla Serrão, "a relação entre as figuras de apego são de extrema importância pois todas as expressões de carinho e de afecto para com este novo ser estimulam-no no contacto com o mundo". São estes adultos que permitem à criança ir construindo a sua sexualidade: primeiro a criança olha o mundo que a rodeia, e depois intrapsicologicamente interioriza-o, percebendo-o.

Nos primeiros meses de vida, as carícias, os beijos, os sorrisos e os sons estimulam o contacto da criança com o mundo. Não havendo a consciência do prazer sexual, tudo propicia a descoberta e conhecimento do corpo, assim como o desenvolvimento da afectividade com os seres mais próximos. Desde o mamar, ao tomar banho até mudar a fralda, tudo contribui para o bem-estar da criança e o seu desenvolvimento saudável.

Por volta dos dois anos, já as crianças aprendem a controlar os tempos, as rotinizações em que querem fazer chichi e cocó, a fala ajuda-as a pedirem para irem à casa de banho. Nesta fase, embora os cuidados de limpeza e higiene sejam fundamentais, não se deve exagerar no zelo. Como alertam Milice Ribeiro dos Santos e a psicóloga Gabriela Moita, no guia "Falemos de sexualidade", da APF, "nalguns casos a associação entre sexo e ‘porcaria’ poderá mais tarde, no adulto, repercutir-se como uma não aceitação do seu próprio corpo, dos seus cheiros e líquidos, o que eventualmente levará a manifestações negativas nas suas vivências afectivas e comportamentos mais íntimos".

A idade dos porquês

Com a idade dos porquês, a partir dos 3 anos, vêm também as perguntas sobre o corpo, as diferenças físicas entre os meninos e as meninas e as manifestações mais expressivas de sexualidade.

À medida que as crianças vão tornando mais complexo o seu relacionamento com o mundo, fazem perguntas e querem obter respostas. Nesta fase, querem saber porque é que as meninas não têm pilinha, porque é que a mãe tem maminhas, como é que nascem as crianças. Da mesma forma que perguntam coisas, aprendem, pelos próprios recursos, a explorar o meio envolvente e o seu corpo.

A par das brincadeiras de médicos, surge a descoberta dos órgãos sexuais e a masturbação. Perspectivada, socialmente, como algo de mau, é habitual que muitos pais se questionem se não será um vício ou um comportamento inadequado, impondo regras como "lava as mãos porque é porcaria" ou "vou cortar-te a pilinha".

Milice Ribeiro dos Santos e Gabriela Moita estimulam os pais a acreditar que "é possível orientar a criança, sem a culpabilizar, a ter essas manifestações na intimidade, dizendo frases do tipo ‘faz antes isso no teu quarto’".

Não deverá haver motivo para alarme, nem para atitudes repressivas, já que esta é só mais uma etapa do desenvolvimento, em que os filhos aprendem a conhecer os órgãos genitais, como já haviam conhecido outras partes do corpo.

Se a sexualidade da criança não deve ser ignorada pelos pais, também a intimidade destes deve ser preservada. Ao longo do processo de desenvolvimento, os mais pequenos vão aprendendo a conhecer-se por oposição ao outro. Por volta dos 3 anos, as questões de género estão muito presentes. As raparigas e os rapazes vão construindo a sua identidade com base em modelos reais e simbólicos existentes. As relações estabelecidas com adultos permitem-lhes aprender diferentes papéis sociais e de género. "O objectivo é que esta representação tente ser o mais possível flexível, permitindo que, tanto o homem como a mulher, construam a sua identidade, sem ser obrigatoriamente por oposição ao outro género" adianta Carla Serrão.

Em paralelo, a atenção que os filhos exigem aos pais não deve ser motivo para a ruptura entre o casal. Como explicam Gabriela Moita e Milice Ribeiro dos Santos, "os filhos devem aprender a respeitar a existência de intimidades que passam só entre os pais, sem que isso corresponda a um sentimento de perda de amor".

Ainda és virgem?

A revolução hormonal, psicológica e afectiva que toma conta dos adolescentes na fase da puberdade provoca efeitos em toda a família. Se antes as atitudes exibicionistas dos filhos no que ao corpo diz respeito chocavam os pais, agora é frequente os filhos terem vergonha de se exporem e silenciarem as dúvidas que assomam em catadupa.

Nos casos em que a família foi desenvolvendo uma relação de respeito mútuo e abertura, não haverá necessidade de programar um dia em que se sentarão à mesa a conversar sobre as relações sexuais e dos perigos que espreitam por todo lado em matéria de sexualidade. Mas esta nem sempre é a norma.

Nesta altura, os pais voltam a sentir-se desorientados. Devem fazer de conta e esperar que passe ou apresentar, de imediato, uma caixa de preservativos aos filhos, para evitarem que o pior aconteça? Também aqui não há respostas milagrosas, apenas princípios. "Tem que se construir uma educação para a tomada de decisão e para a autonomia", defende Milice Ribeiro dos Santos.

É que as incertezas não assaltam apenas os pais. As regras e formas de afirmação nos grupos de amigos exercem uma grande pressão sobre as atitudes a tomar. Deste lado da barricada, há muitas definições pré-formatadas: com que idade se deve deixar de ser virgem, como se deve fazer sexo, quem é que tem mais sucesso junto do sexo oposto e outras construções similares.

Em vez das respostas padronizadas, pais e educadores devem, antes, investir numa educação que não escamoteia o desejo sexual e que aposta na autonomia das opções. Como afirmam Milice Ribeiro Santos e Gabriela Moita, "dos debates [deve] surgir sempre a ideia de que as relações sexuais deverão ter lugar quando se está amadurecido, insistindo na necessidade destas corresponderem, de facto, aos desejos das pessoas envolvidas e não a quaisquer pressões do grupo, do meio ou do parceiro (a)".

Será homossexual?

Se há aspecto que os pais não menosprezam, no que diz respeito à sexualidade dos seus filhos, é a identidade sexual. Começa logo com o tradicional rosa para a menina e azul para o menino e vai por aí fora, passando pela escolha dos brinquedos e da roupa e acabando nas tarefas domésticas ou nas brincadeiras.

"Os pais preocupam-se mais facilmente com os rapazes do que com as raparigas", adianta Milice Santos. Isto é: não se estranha em demasia que uma menina goste mais de usar calças do que saias, mas é suspeito que um menino brinque com bonecas.

Apesar de a reprodução destes modelos estar ainda muito presente, as transformações sociais obrigam pais e educadores a encarar a questão numa outra perspectiva. Ou, como sintetiza a investigadora, "o que é ser homem é algo que está a mudar, por isso, tem que haver uma transformação, senão estamos a reproduzir um tipo de homem que não existe".

Ao longo do desenvolvimento, pode acontecer haver troca de experiências com o mesmo sexo, o que não deve ser interpretado, de imediato, como um sinal de orientação sexual. Este é, aliás, um receio que assalta pais e filhos em simultâneo, mas todas estas experiências, como outras, deverão ser encaradas como mais uma forma de aprender a conhecer o corpo e a explorar a sexualidade.

Educare.pt

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