Aborto espontâneo é seleção natural

Segundo especialistas, o próprio organismo se encarrega de eliminar fetos que apresentam problemas de má formação 
Adilson Camargo
Viver uma gravidez que termina em aborto é uma experiência traumática para qualquer casal. Mesmo que essa gravidez seja de apenas algumas semanas, as marcas podem durar para o resto da vida. Embora seja mais comum do que se imagina, o aborto espontâneo ainda não é bem aceito pelas famílias. Talvez nunca será. Mas o fato é que serve como um filtro, uma espécie de seleção natural dos embriões feita pelo próprio organismo. Normalmente, o feto rejeitado seria incapaz de sobreviver fora do útero ou teria problemas de má formação.

Apesar dessa seleção, uma pequena parte dos fetos com anomalias consegue se desenvolver dentro da barriga da mãe e nascem. Segundo a geneticista Elaine Rodini, coordenadora do laboratório de genética da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, em torno de 5% de todas as crianças que nascem no Brasil apresentam algum tipo de deficiência. De acordo com ela, se não houvesse essa seleção natural provocada pelo abortamento espontâneo, o índice subiria para 20%.

Elaine cita que cerca de 15% de todas as gestações são interrompidas com aborto espontâneo. Isso quando leva-se em consideração apenas a gravidez que é conhecida, ou seja, aquela que chega próxima aos três meses e é constatada por exames. Quando leva-se em consideração também os abortos que ocorrem durante o primeiro mês de gestação, quando a mulher nem sabe que está grávida, a proporção sobe para 70%, ou seja, a maior parte dos abortos acontece sem que a mulher saiba.

De acordo com a geneticista, é considerado aborto espontâneo o término da gravidez até o quinto mês de gestação ou quando o feto pesa no máximo 500 gramas. Acima disso, é considerado natimorto. A família precisa registrar o feto e enterrá-lo.

As causas mais comuns para o aborto espontâneo são anormalidades nos espermatozóides do pai, no útero ou no óvulo da mãe, uso de drogas, como cigarro, álcool e entorpecentes, estresse, diabetes, idade avançada e problemas genéticos, entre outras.

Os sintomas de que algo não está bem são sangramento vaginal (de poucas gotas a um fluxo intenso) e contrações uterinas. Quando isso ocorre, a gestante deve procurar um médico para ser examinada e, se for o caso, fazer uma ultra-sonografia transvaginal para saber se o feto está bem ou não.

Uma vez constatada a morte do feto, o procedimento padrão é internar a paciente para uma curetagem (limpeza do útero). Às vezes, a mulher sofre o abortamento completo em sua própria casa. Nesse caso, o ultra-som serve para mostrar se foi tudo eliminado.

Segundo Elaine, sofrer um aborto espontâneo não significa, necessariamente, que as gestações futuras não vão se desenvolver até o fim. Entretanto, as chances de um segundo aborto aumentam 20%. Quem passa pelo segundo aborto tem 35% de chances de ter a gravidez interrompida novamente. Na quarta gestação, o risco aumenta para 50%, segundo ela.

Elaine lembra também que a idade é um fator de risco que merece toda a atenção. Após os 35 anos, mesmo que ela já seja mãe, o risco de sofrer um aborto espontâneo aumenta bastante, chegando aos 50% quando se tem 40 anos.

Estava ‘morto’ e reviveu

Por causa de um diagnóstico equivocado de aborto espontâneo, a farmacêutica Karla Munhoz quase perdeu seu primeiro filho. Ela estava no segundo mês de gravidez quando teve um sangramento intenso. Imediatamente, ligou para o médico, que indicou que ela fosse fazer um exame de ultra-sonografia para ver como estava o feto.

Sem cerimônias nem meias-palavras, o médico responsável pelo exame deu o veredito. Segundo ele, não havia mais vida dentro do útero dela, apenas “restos fetais”, que deveriam ser removidos pela curetagem.

Arrasada, Karla voltou para casa. Ligou para o médico dela dando a notícia. Mais cauteloso que seu colega de profissão, o médico orientou a paciente a permanecer em repouso absoluto por uma semana e depois repetir o exame. A ordem era não levantar da cama para nada, a não ser um banho rápido a cada dois dias.

Passado o prazo e com a ordem cumprida, Karla fez novo exame, em outro laboratório, e ficou sabendo que seu filho continuava vivo, ao contrário do que havia afirmado o médico de uma semana atrás. “Foi uma alegria indescritível. Era como se eu tivesse ficado grávida duas vezes”, comenta.

Hoje, Matheus está com 16 anos e cheio de saúde. Depois dele, Karla engravidou novamente. Desta vez, a gestação foi mais tranqüila e nasceu Victor, que está com 13 anos. Com base em sua experiência, ela diz que é sempre bom buscar uma segunda opinião, um segundo exame que comprove de forma inequívoca o abortamento.

in Jcnet

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