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Mau comportamento aos 3 anos?

 Questão:
Tenho uma filha com 3 anos e quando contrariada guincha, grita, chora, fica vermelha, esperneia, eu sei lá . Vomita quando a coloco de castigo.
A minha questão é: quando é que ela começa a perceber que não pode fazer? E já agora: qual a melhor forma de lhe mostrar que 'não é não' e que, infelizmente, nem tudo na vida é como nós queremos? 
Isto também porque penso no futuro e arrepia-me a ideia de ter uma menina mimada, na qual não tenha qualquer 'controlo'...
Muito obrigada.
Alexandra

 Resposta:
Querida Alexandra,
A sua filha encontra-se em plena fase de afirmação do seu “poder” e das suas “vontades”, pelo que fará de tudo um pouco para conseguir alcançar o que deseja. Sobretudo “provocando” até à exaustão os pais.
Perante um amuo, uma birra, uma impertinência, não é invulgar os pais questionarem-se “Será que o meu filho tem mimo a mais?”. De facto, existe uma tendência natural e quase automática para associarmos o chamado “mimo” (que neste contexto será sempre negativamente superlativo) com a birra, provavelmente porque ouvimos frequentemente sentenciar que “o mimo a mais estraga”. Contudo, não é o mimo o causador de uma baixa resistência à frustração por parte da criança. Logo, não existem crianças mimadas. O que existe na base de um baixo limiar de frustração é a inconstância na definição de limites, essenciais no saudável desenvolvimento da criança, a todos os níveis (cognitivo, social, emocional e até mesmo físico). Nenhuma criança gosta de ser contrariada, seja em que fase desenvolvimental for. No entanto, existe uma interessante dualidade que importa sublinharmos: se, por um lado, existe a birra, a frustração, o
 amuo, por outro lado a criança, ao testar os limites dos pais, está a transmitir precisamente a necessidade de disciplina. Vejamos um exemplo prático: imaginemos que a criança se encaminha para os botões de um fogão ou para a porta de um forno que esteja quente. Dizemos-lhe “Não!”. A criança pára, olha para nós, olha para o fogão e prossegue a sua marcha. Ora, porque é que ela continuou a sua investida após o nosso “Não!”? Porque este constituiu uma advertência incompleta para ela. “Não porquê?”, questiona-se a criança. Entra, aqui e agora, a necessidade de explicarmos à criança o porquê do nosso “Não!”. A explicação, adequada à idade da criança, é fundamental, bem como o canalizar a criança para outra actividade do seu agrado ou facultar alternativas comportamentais, de natureza mais positiva (por exemplo, quando a criança atira os brinquedos para o chão poderemos explicar-lhe o porquê da nossa
 reprovação, ensinando-a a depositar calmamente os brinquedos numa caixa).
Disciplinar é, por conseguinte, ensinar. Muitos pais questionam-se sobre a idade em que deverão começar a disciplinar a criança e se, em determinadas situações, não estarão a ser demasiadamente brandos ou rígidos com a criança.
Relativamente à primeira questão, a disciplina está presente nos nossos actos desde os primeiros meses de vida do bebé, pelo que não existe o chamado “momento ideal para disciplinar” por si só. Existe, isso sim, uma maior receptividade por parte da criança em interiorizar os limites que lhe são impostos, o que costuma acontecer por volta do primeiro ano de vida.
Como atrás referi, a disciplina está presente desde sempre, apesar de, por tão ténue que nos pareça, raramente darmos conta que a estamos a pôr em prática. Por exemplo, ensinamos os nossos filhos a dormirem sozinhos (primeiro no quarto dos pais e depois no seu próprio quarto), ensinamos os nossos filhos a não morder o mamilo aquando da amamentação (afastando-os gentilmente e dando-lhes um mobile alternativo para o bebé morder, nem que seja o nosso próprio dedo!), entre outros exemplos.
Quanto à segunda questão, a que se reporta ao facto de sermos demasiadamente brandos ou rígidos na disciplina dos nossos filhos, urge ter presente uma primeira ideia: a disciplina deverá ser constante pois a criança, ao pressentir qualquer indecisão da nossa parte (por exemplo, o pai diz que não e a mãe diz que sim, nem que seja com o olhar, ou então quando num dia a criança pode fazer uma dada acçãoe no outro dia já não), irá repetir o comportamento que nós estamos a reprovar ou, até mesmo, intensificá-lo.
Paralelamente, existem sinais que a criança nos envia relativamente à natureza da disciplina que está a receber, permitindo-nos regular as nossas orientações. Alguns dos comportamentos que merecem uma atenção cuidada são:

- Uma criança apática, pouco expressiva, que não desafia os pais;
- Uma criança sensível às criticas brandas que nela despoletam um choro fácil;
- Uma criança tensa ou que regrediu noutras áreas desenvolvimentais (sono, alimentação, controlo dos esfíncteres);
- Uma criança demasiadamente dócil, sossegada e que não expressa sentimentos negativos;
- Uma criança facil- e constantemente irritável ou ansiosa.

Qualquer destes sinais estará a indicar aos pais que estes deverão confinar a disciplina a questões realmente pertinentes, não “acorrentando” a criança, por assim dizer, a demasiadas restrições. Que mensagem estarão os pais, neste caso, a transmitir aos filhos? A de que o mundo é um lugar perigoso, de que qualquer exploração ou uma curiosidade mais ávida têm escondidas uma ratoeira e que a criança nunca terá recursos para poder lidar com todo o tipo de estímulos, positivos e negativos.
Por outro lado, encontramos pais que não sabem dizer “Não!”, provavelmente com receio de que os filhos os amem menos ou então porque não desejam conotar negativamente o curto espaço de tempo que têm com os filhos durante a semana, por exemplo. Pais, os filhos vão amar-vos sempre e agradecem quando nós lhe impomos limites. Porque tal confere-lhes segurança e ajuda-os a melhor ler (e apreender) o mundo envolvente.

Dra Sofia Sousa
Psicóloga Infantil
Especialista doBebe.com


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