Adopção: a verdadeira realidade

Há crianças que já sentiram o dobro do peso da rejeição. Depois do falhanço do afecto na família biológica, vivem o fracasso de uma nova vida com os pais adoptivos: no ano passado, 17 crianças em pré-adopção regressaram às instituições.

 

Recentemente, um casal que conseguiu a confiança judicial de três crianças devolveu-as após o primeiro fim-de-semana que passou com elas.

Este é um exemplo entre os muitos que ocorrem anualmente, embora os números tenham vindo a diminuir, assegura o presidente do Instituto de Segurança Social, graças ao aperfeiçoamento gradual do processo de selecção dos candidatos.

Contudo, para Edmundo Martinho, que falava em entrevista à Lusa, bastava um caso apenas para ser preocupante.

“Estamos a falar da adopção como um processo de grande complexidade para a criança e para quem adopta. Temos de ser capazes de ter soluções para prevenir o risco”, disse.

Este fenómeno, ainda que residual, é igualmente preocupante para o presidente da Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens, o juiz jubilado Armando Leandro, que em toda a sua carreira diz ter tido a felicidade de nunca ter encontrado um caso idêntico.

“Uma criança que é rejeitada sofre e isso tem consequências graves”, disse.

Há quem o faça porque as crianças não se dão bem com o cão que a família já tinha, outras porque as famílias percebem que afinal ter um filho custa muito dinheiro.

Os casos não são todos iguais, explica Edmundo Martinho, mas alguns chegam mesmo a ser indignos e revelam, desde logo, a falta de preparação dos candidatos e algum insucesso na forma como é feita a selecção.

“Falo de razões que se prendem com a perturbação das condições reais de vidas. Percebem que a entrada de uma criança no seu espaço familiar introduz alterações para as quais não estão preparados”, explicou Edmundo Martinho.

“Nós esperaríamos que, num processo destes, quem quer adoptar estivesse imune a razões deste tipo” frisou o presidente do Instituto de Segurança Social.

“Felizmente, o que estamos a assistir é a uma redução destes casos. Estamos a melhorar neste campo, se é que é possível encontrar uma tendência na análise de dois anos”, adiantou.

Os números disponíveis dos últimos anos, explicou, apontam para um aumento do número de adopção e para uma redução do insucesso que ocorre no período de pré-adopção.

Edmundo Martinho garante que todo este sistema está a ser melhorado, com o aumento progressivo dos processos de formação, tornando cada vez mais densa e qualificada a selecção dos casais candidatos à adopção.

Muito embora tenha sido conseguido fazer melhor e em menos tempo a selecção dos casais, está a ser preparado um processo formativo para os candidatos e para a fase em que é decretada a adopção.

Para o presidente da Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens, é preciso cada vez mais preparar as pessoas para que interiorizem que a criança, com as características que tem, pode encontrar neles os pais e eles podem encontrar nelas o filho.

“Esta ligação não é fácil, mas é possível e bela. Talvez das coisas mais nobres da vida”, disse, adiantando que é necessário ter consciência desta complexidade dos afectos colocando a tónica no que é essencial.

fonte: Agência Lusa

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