As crianças devem aprender a lidar com a morte,

Maria, 33 anos, acreditou e continua a acreditar, mesmo depois de os médicos terem-lhe dito que não valia a pena. A história é contada com nome fictício, por causa de uma teimosia a que chama fé. A sua primeira e única filha nasceu, em 2007, com hipoxia (falta de oxigénio no cérebro) e foi depois diagnosticada com paralisia cerebral. Está a participar num tratamento experimental com as células estaminais extraídas do sangue do cordão que os pais decidiram guardar no parto. Os sinais de melhoria são pequenos, e não se sabe sequer se resultam da intervenção na Universidade Duke, em Durham, nos Estados Unidos, mas Maria tem mais esperança do que muitos pais na mesma situação.

A criopreservação do sangue do cordão umbilical entrou no mercado português em 2003 e, desde então, em algumas dezenas de milhares de recolhas o número de utilizações não perfaz os dedos de uma mão. Ainda assim, ninguém consegue dizer se é ou não uma aposta que valha a pena.

Em 2007, a notícia da recuperação de um rapaz de dois anos com paralisia cerebral depois de uma infusão de células estaminais chamou a atenção para o trabalho da investigadora Joanne Kurtzberg. Apesar do eco que este caso teve na imprensa mundial, os aparentes casos de sucesso ainda não foram descritos em revistas científicas e a investigadora norte-americana mantém-se cautelosa. Ao i, Kurtzberg diz ser ainda cedo para revelar conclusões: o trabalho só terminará no próximo ano.

A filha de Maria é uma das 100 crianças que já passou pelo processo experimental e estão previstas outras quatro participações portuguesas. Além destes casos, apenas uma segunda criança portuguesa precisou do sangue guardado pelos pais, mas neste caso não usou o seu, mas o do irmão – noutros casos têm sido utilizadas células do cordão doadas a bancos internacionais.

Fez na sexta-feira passada três anos que Frederico Araújo, hoje com quatro anos, recebeu uma infusão de células estaminais para tratar uma Imunodeficiência Combinada Severa. Usou as células do irmão, dois anos mais velho, em substituição de um transplante de medula óssea. Não pode, no entanto, usar as suas próprias células, que tinham sido criopreservadas, pois tinham esta deficiência genética.

Seguros de vida Todos estes tratamentos envolvem recolhas feitas na Crioestaminal, a primeira empresa a disponibilizar o serviço de criopreservação, em 2003, e que soma 35 mil recolhas. O facto de terem começado há mais tempo parece explicar a coincidência, diz o administrador Raul Santos. Com outras seis empresas privadas a funcionar no país, a adesão dos pais tem aumentado, embora o preço médio se mantenha acima dos 1 200 euros, e das probabilidades de utilização serem limitadas.

Um dos contrapesos no debate das células estaminais tem sido a Sociedade Portuguesa de Células Estaminais e Terapia Celular (SPCE-TC). José Belo, professor e investigador da Universidade do Algarve e dirigente da SPCE-TC frisa que as directivas europeias para a transplantação de tecidos sublinham que a actividade dos privados, como fornecedores de um "seguro de vida", que tem por base as promessas em torno das células do cordão, uma prática abusiva. "Não se trata de uma não utilização imediata, mas de uma não utilização", aponta. Contudo, para a decisão dos pais não podem existir linhas de orientação: "Penso que as pessoas sabem que aquilo serve para muito pouco, mas é uma pressão psicológica muito forte: perguntam-me ‘e se uma dia a minha filha precisar exactamente destas células?’"

Esta pressão e o reconhecimento do papel destas células fez nascer em Julho do ano passado o primeiro banco público nacional de sangue do cordão. Em menos de um ano de implementação foram feitas mais de 1600 recolhas, diz ao i a directora do Lusocord Helena Alves. Ainda nenhuma foi precisa. Novos protocolos vão permitir aos hospitais que requisitem o serviço ter kits de reserva para fazer recolhas do sangue do cordão na hora, sem ser precisa a solicitação dos pais antes da data programada para o parto. No banco público garante-se que só são guardadas células sem deficiências genéticas, uma cláusula que excluiria por exemplos as células de Frederico, que a mãe decidiu criopreservar, mas aceitaria as dos irmãos. A diferença é que poderiam ser utilizadas antes que qualquer um dos filhos de Isabel de Araújo precisasse.

Decisão difícil? Guardar as células estaminais pesa na carteira e na consciência dos pais. A Sociedade Portuguesa de Células Estaminais e Terapia Celular estima que a utilização aconteça um em cada 20 mil casos, o que define uma "utilidade restrita." Nas reticências de José Belo pesam ainda outros factores: "Sabemos hoje que existem células melhores, mais plásticas, como as do mesênquima do cordão, diz. Outro argumento é que há três anos já foi possível reprogramar células adultas em células estaminais embrionárias (iPS), o tipo de células estaminais mais versátil e que só está disponível no feto, na fase do blastocisto, ainda no útero. "Tudo isto ainda é muito experimental, mas daqui a uns anos já não teremos de congelar as células à nascença", afirma.

Para mães como Maria e Isabel Araújo as probabilidades falharam e não haveria anos para esperar. Durante a gravidez, decidiram guardar o sangue do cordão porque podia vir a ser preciso. Conheciam as hipóteses de transplante para doenças do foro sanguíneo e imunitário como a leucemia, em que estas células funcionam melhor do que as da medula óssea, o que lhes bastou para tomar a decisão mesmo ignorando promessas clínicas como o tratamento da paralisa cerebral ou da diabetes (ver caixa) e cardiopatias.

A filha tinha três meses quando Maria soube do trabalho de Kurtzberg, "Informei a pediatra e o neurocirurgião e a reacção foi tão negativa que pensei: "esquece". Decidi não contar", diz. Seguiram-se meses de trocas de emails com Duke até enviar os exames da filha, e ter a confirmação de que esta era candidata ao tratamento. Só em Maio do ano passado foram aos Estados Unidos.

Em três dias, a criança recebeu uma infusão de células estaminais e medicação para evitar a rejeição, conta Maria. Resultaram sem grandes promessas: disseram-lhe que podia esperar resultados nos primeiros seis meses a um ano, esperança por que pagou 14 mil dólares. "Tenho notado melhorias, mas não sei se são devido à infusão ou à passagem do tempo", diz optimista. "Não o fizemos à procura de uma cura, foi à procura de qualquer melhoria que venha. Uma melhoriazinha já é muito." Como a filha tinha pouco peso só usaram 20% dos milhões de células guardadas e esperam regressar aos Estados Unidos depois de Junho para terminar o tratamento. "A médica disse-nos que a nossa filha tinha muitas células, e boas. É uma luz, uma esperança. Enquanto tivermos esperança tentaremos, e pode ser até que não seja útil agora mas valha a pena daqui a 10 anos."

Isabel Araújo também não fez contas: tem quatro filhos, e guardou o sangue de todos. "Depois de passar pela necessidade, valem muito mais do que o que custa guardá-las", diz. O tratamento de Frederico foi demorado, mas hoje tem uma vida normal. Anda no infantário, vai à piscina e é seguido no hospital – não há certezas de que não vai voltar a ter problemas, mas por agora está bem. "Escolhi investir em saúde. Não se faz umas férias e corta-se em algumas coisas, mas pode salvar-se uma vida."

in ionline.pt
 

Written By
More from

Queques de maçã ( 2 anos)

Ingredientes: margarida  vegetal para untar farinha para polvilhar 2 maçãs (mais…)
Read More

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *