As crianças e a (indis)ciplina

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disciTodas as crianças necessitam de ter regras e disciplina para que possam crescer harmoniosamente e aprender a respeitar e a ser respeitadas. Essas regras tem de ser aprendidas e as consequências do seu incumprimento têm muitas vezes de ser treinadas até que a criança aprenda a distinguir um comportamento ajustado de outro menos correcto. Castigar significa censurar algo que ultrapassou os limites e não necessariamente bater. Antes de recorrer às estratégias que se seguem, discuta-as com as demais pessoas que lidam com a criança, centrando-se em problemas de comportamento específicos, e acordando com elas os métodos a utilizar. Além disso, verifique se a criança agiu de propósito ou não quando se comportou de forma menos adequada ou se foi um “acidente”, bem como se ela já deveria saber a regra que não cumpriu (não se pode exigir a uma criança que se comporte de determinada maneira se isso não lhe foi ensinado). Dê à criança uma oportunidade de se explicar e tente compreender o que se passou.
Importa ainda sublinhar que qualquer que seja aquela que decida utilizar, os métodos devem ser consistentes (por exemplo, usados por ambos os pais), para que seja transitada à criança uma mensagem clara.

Estimular o comportamento positivo
Evite dizer constantemente à criança “não”, “não faças” e “pára”. Em alternativa, sugira um comportamento positivo, dizendo à criança o que pretende que ela faça. Por exemplo, em vez de dizer “Não corras em casa!” diga “Anda, se faz favor.” Ou, em vez de “Não risques a mesa!” diga “Faz o teu desenho neste papel.”

Repetir ou arranjar
Esta estratégia deriva da anterior mas tem a particularidade de exigir que a criança corrija ou repare os danos causados pelo comportamento inadequado. Como exemplos deste tipo de ordem temos “Pede desculpa ao teu irmão” ou “Arruma o que desarrumaste, se faz favor”.

Atenção diferencial ou selectiva
Consiste em ignorar selectivamente os comportamentos incorrectos e dar atenção aos que são adequados. Para que seja correctamente aplicada deverá em primeiro lugar definir os comportamentos adequados que gostaria que a criança desenvolvesse (por exemplo, brincar em silêncio). Fale com a criança, descreva em voz alta o comportamento adequado e elogio-o; imite este comportamento e exiba afecto quando o mesmo é reproduzido.
De seguida escolha um comportamento desadequado que deseje que a criança modifique. Quando ela o exibir, mude imediatamente de uma atenção activa para um ignorar activo: desvie o olhar, pare de falar ou afaste-se se necessário. O importante aqui é não dar qualquer atenção, seja esta positiva ou negativa.
Quando a criança se aperceber que os seus esforços acrescidos para conquistar a sua atenção fracassaram, ela vai mudar de estratégia. Se esta for incorrecta ou incómoda, continue a ignorá-la; logo que a criança manifestar o comportamento adequado, dê-lhe toda a atenção a este. Repita as vezes que forem necessárias.

Avisos verbais
Para implementar esta estratégia basta dizer à criança uma única frase, do género “Se…então…”, que antecipe a consequência caso ela não corrija o seu comportamento sozinha. Por exemplo: “Se gritas, então vais para o teu quarto”. Se gritar, deverá cumprir o aviso pelo que não faça ameaças que não possa ou não queira concretizar. Se a criança deixar de gritar, dê-lhe imediatamente um reforço positivo, como por exemplo um elogio verbal (“Obrigado por falares baixo. Assim é muito melhor”) ou um afecto físico (um abraço, um beijo, um afago…).

Pausa
Esta técnica tem este nome porque consiste em fazer uma pausa relativamente a um reforço positivo. Para se criar um afastamento do reforço positivo, é em primeiro lugar necessário ter um ambiente que actue, de facto, como reforço positivo. O ambiente exterior à pausa é chamado de ambiente de “acção” Para que esta estratégia resulte tem então de haver um contraste entre o ambiente de pausa e o de acção.
Como implementar esta técnica?
Em primeiro lugar comece por criar um ambiente de acção divertido e agradável e esteja atento ao comportamento adequado da criança.
Não grite, não repreenda nem se mostre zangado ao lidar com um mau comportamento, mas procure dizer à criança, calma e brevemente, o que fez de errado, seguida da consequência (por exemplo, “Se bateres, então vais para a pausa”. Nesse momento deve afastar a criança do reforço positivo e levá-la para o local de pausa, como por exemplo, uma cadeira situada numa zona segura mas monótona, ou seja, a zona de pausa deve ser neutra e isenta de distracções tais como televisão, computador, brinquedos…
No caso da criança ser muito pequena e não querer ou não ser capaz de se sentar pode optar por colocá-la no parque ou num berço portátil, mas sem brinquedos ou quaisquer outros objectos com que se possa divertir.
Durante o tempo que a criança estiver na pausa, não olhe, não fale nem interaja com ela. A pausa deve, no entanto, ser curta (sobretudo as primeiras vezes), e alongar gradualmente a duração da mesma em cerca de um minuto por cada ano de idade.
Quando a pausa terminar, a criança deverá ficar sossegada pelo menos três segundos antes de ser retirada do local, devendo depois ser integrada no ambiente de acção.

Palmada
A palmada só deve ser usada para reparar um comportamento potencialmente perigoso (exemplo: correr para a estrada), ou quando usada como resposta programada a um problema comportamental persistente que não se resolveu com recursos a outras técnicas disciplinares.
Nunca deve ser usada quando o pai ou a mãe estiverem zangados ou no caso de perderem o controlo!
Se tiver mesmo de recorrer a esta técnica lembre-se que dar a palmada de mão aberta, nas nádegas e sem usar qualquer objecto ou causar danos. A palmada serve apenas para marcar o momento e nunca para magoar a criança pois bater, seja com o que for, além de errado poderá ser considerado mau-trato.

Sílvia Fernandes
Psicóloga
Especialista do Dobebe.com

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