As modernas amas de leite

Ao doarem o seu próprio leite, 25 voluntárias ajudam a salvar os bebés prematuros internados na Unidade de Neonatologia da Alfredo da Costa, em Lisboa.


Tem contornos de modernidade a nova geração de ‘amas de leite’. São anónimas e não conhecem os bebés a quem dão o ‘melhor do Mundo’, que passa por todo um processo de análise e pasteurização no Banco de Leite Humano da Maternidade Alfredo da Costa, o primeiro do género em Portugal. O princípio, esse, é o mesmo de sempre: dar a quem mais precisa.

Filipa Almeida ainda não despertou do turbilhão que tomou conta da sua vida. Dá o seu testemunho mas não a cara, pois ainda não encontrou forças para "contar a toda a família" a corrida contra o tempo que trouxe o filho ao Mundo.

Depois de uma gravidez abruptamente interrompida devido a uma malformação uterina, no ano passado, voltou a receber a visita da cegonha meses depois. Nenhuma outra notícia poderia resolver melhor o passado para a jovem mãe de 28 anos. Às 24 semanas de gravidez, porém, é confrontada com o mesmo pesadelo: também este bebé parou de crescer, novamente pela deficiente passagem de nutrientes através do cordão umbilical.

Filipa recolheu ao hospital e, antes que fosse tarde, os médicos resolveram trazer o Lourenço ao Mundo, com 28 semanas de gestação e 540 gramas de peso. "Um choque" amortecido pela possibilidade de "poder alimentar o Lourenço com leite de outras mães" enquanto esperava que o seu chegasse. "Assim que me foi apresentada e explicada esta solução aceitei. Nunca me passou pela cabeça recusar. Afinal, esse leite permitirá ao meu filho ter mais força para lutar. Dá-lhe defesas que nenhum leite artificial pode substituir", justifica.

Já Alexandra Mesquita não teve aviso prévio. A 17 de Janeiro, com 30 semanas de gestação e sem que nada o fizesse adivinhar, as gémeas Samanta e Alexandra chegaram ao Mundo, com 1950 e 1680 gramas, respectivamente. Nesse dia, aquele que era também o mais feliz da sua vida, Alexandra entrou em pânico. "Tinha a noção de que era muito cedo e não sabia como elas vinham. Tive medo de as perder", confessa. As gémeas, porém, estavam decididas. Samanta ainda passou pelos cuidados intensivos, devido a problemas a nível pulmonar e gástrico mas fintou-os com unhas, dentes e uma ajuda do Banco de Leite Humano.

"Perguntaram-me logo se queria dar-lhes desse leite e nem sequer hesitei, porque desde logo é explicado todo o processo de controlo bacteriológico. Sei que há pais que recusam. Não percebo porquê. Para mim foi algo perfeitamente normal". Passado o susto – e uns longos 12 anos de luta contra a infertilidade – Alexandra só quer levar as suas meninas para casa, sãs e salvas. "Aqui tenho a vida em suspenso. Só lá em casa vou sentir que elas são só minhas".

É em casos como o de Filipa e de Alexandra que Anabela Ribeiro pensa quatro vezes por dia, todos os dias da semana, cada vez que se predispõe a despender de 20 minutos para retirar "às vezes mais de 130 ml de leite em cada sessão". Ou seja, quase meio litro de leite por dia.

Anabela é tímida e "não gosta de aparecer", mas sente-se "uma verdadeira heroína" quando abre o congelador para juntar mais uma garrafinha ao seu profícuo armazém. "Ter um filho em risco de vida, num ambiente inóspito como o de uma unidade de neonatologia, deve ser aterrador. É na angústia dos pais e nos seus filhos prematuros que penso". A seu lado, Matilde, a ‘culpada’ desta dupla faceta da mãe, brinca alegre com a irmã mais velha, de 11 anos. Nasceu há nove meses no Hospital Fernando da Fonseca (Amadora), onde a mãe tomou conhecimento da possibilidade de ser dadora.

"Já com a minha primeira filha tive muito leite. Acabava por deitar fora. Deve ser de família, pois a minha avó foi ama de leite e agora ficou toda orgulhosa quando soube que, de certa forma, eu estava a seguir-lhe as pisadas", confessa Anabela, que regressou ao trabalho, numa IPSS, há vários meses mas nem assim viu a produção decair. "Se calhar o facto de trabalhar com crianças, perto de casa e de contar com o respeito e o apoio dos meus colegas de trabalho, ajuda. Afinal, são também eles que me deixam fazer as pausas necessárias. Costumo dizer-lhes: ‘agora vou ali tirar leite para os meus outros meninos’", diz Anabela, actualmente a maior dadora do Banco de Leite Humano.

A Maternidade Alfredo da Costa (MAC), no entanto, precisa de mais, muito mais. O neonatologista Israel Macedo, responsável pelo criação do Banco, faz rapidamente as contas de cabeça: "precisamos de três litros por dia para cada uma das nossas duas unidades de neonatologia. Ou seja, seis litros. Mas há alturas em que tenho o congelador quase vazio, não por falta de capacidade do sistema, que nos permite pasteurizar oito litros de cada vez, mas por falta de leite. Neste momento temos 25 dadoras activas mas só dez têm leite em quantidade. Se pensarmos que o objectivo futuro é fornecer leite para todas as unidades de neonatologia dos hospitais públicos de Lisboa, a necessidade de dadoras é muito maior. Há que perceber que estes são números em constante rotação. Há sempre uma mãe que começa a trabalhar e tem uma quebra na produção e, como tal, é preciso estar constantemente a recrutar novas dadoras", sublinha.

Foi precisamente o que aconteceu a Marisa Rodrigues. Em Julho, a administrativa de 22 anos deu à luz a Madalena no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, e desde logo percebeu que tinha excedentes de leite. Contactou então a MAC e depois de perceber que ser dadora "não tinha custos nem trazia complicações", foi a uma entrevista e fez análises, para saber se estava apta a ser dadora. "A MAC fornece todo o material: as embalagens, a bomba e também o contacto para marcarmos o transporte, feito por uma empresa especializada. Só temos de despender de alguns minutos para retirar o leite, que tanto bem pode fazer a outras crianças". Pena é que esta colaboração não durou muito. "Assim que comecei a trabalhar, passei a ter muito menos leite. A isso somou-se um internamento da Madalena e então tive de parar de doar, pelo menos temporariamente".

A ideia de criar um Banco de Leite Humano em Portugal nasceu em 2007. "Houve um congresso em Viseu, onde uma colega de Madrid fez uma apresentação sobre a experiência do banco de leite. Constatámos que éramos praticamente o único país da Europa que ainda não tinha algo do género. Nesta área da neonatologia ocorrem muitas infecções e verificou-se que o leite artificial traz mais problemas. Isso levou-nos a entrar primeiramente em contacto com a realidade do Brasil, onde há centenas de bancos, mas depois adoptámos o modelo e os equipamentos britânicos", explica Israel Macedo. O médico reconhece ser frequente as mães dos prematuros não terem leite" – "ou porque o bebé nasceu cedo demais para provocar no seu corpo a devida resposta fisiológica ou devido ao stress do parto pré-termo".

Num parto natural, sem dor e sem nervos, nasceu há seis meses a Mariana, que se veio juntar ao Afonso (três anos) e completar a belíssima prole de Ana Barros. A economista de 34 anos soube do projecto na MAC, onde foi seguida após ter perdido outro bebé. "Tinha uma mal- formação e não teria qualidade de vida. Mas nunca esqueço a Matilde. Ando sempre com uma imagem da última ecografia que fiz, para me lembrar de que essa filha existiu de facto… não foi apenas um sonho meu. Embora não tenha passado pelo drama de um parto prematuro, sei o que é a dor de perder um filho e talvez isso me tenha dado motivação adicional para ser dadora", recorda quem dá leite diariamente sem qualquer espírito de sacrifício.

"Deixo a Mariana mamar o que quer e depois tiro para dar. Não custa nada. O que fazemos é enganar o corpo. Ao tirarmos mais leite do que aquele que o nosso bebé precisa, o corpo vai sempre produzir em excesso". Preocupa-a apenas o que pode acontecer quando regressar ao trabalho: "Mas procuro não stressar. O compromisso que tenho é ‘um dia de cada vez’ por nós, pelos nossos e pelos outros".

MÉTODO CIENTÍFICO IMPORTADO DE LONDRES

A MAC recebeu, no ao passado, dois congeladores, um selador, um pasteurizador e um crematócrito (aparelho que analisará a qualidade do leite), num investimento que rondou os 50 mil euros. É aqui que, depois de recolhido, o leite é sujeito a uma análise de acidez, gordura e bacteriologia. Depois, o leite é selado e pasteurizado para eliminar vírus e bactérias, antes de ser armazenado num congelador.

NOTAS

PESO

O ano passado nasceram na MAC 60 bebés com peso inferior ou igual a 1,1 kg até à barreira das 1500 gramas.

ARIANA

A bebé mais pequena chama-se Ariana e nasceu no Natal com 540 gramas. Continua internada.

PARTOS

Apesar dos avanços científicos, a taxa de prematuros em Portugal e no Mundo é cada vez maior.

CAUSAS

A reprodução medicamente assistida e a gravidez em idade avançada contribuem para o aumento da prematuridade.

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