Barrigas de aluguer e a falta de senso

As barrigas de aluguer voltaram às luzes da ribalta, em Portugal com o anúncio de que os partidos com assento na Assembleia da República tencionam estudar uma lei que permita o seu uso quando a mulher tiver sofrido uma lesão irreversível que não lhe permita levar a cabo a gestação, e em Espanha, onde se discute o registo de nascimento de bebés que tenham nascido de uma mãe alugada, mas com o património genético de outra mãe.

Mas embora a ponta do icebergue que apareceu nos dois países seja diferente, o problema é o mesmo: legalizar uma prática que tem sido ilegal, mas a que aparentemente muita gente recorre, sobretudo casais homossexuais que desejam ter filhos, contratando mulheres de países onde é reconhecida (estados dos EUA) ou praticada clandestinamente (Brasil, Índia), num aproveitamento claro da situação economicamente desfavorecida das mulheres. Confesso que a ideia me repugna totalmente, por muito que a veja encarada com naturalidade em séries como Irmãos e Irmãs, onde Kevin e o namorado vão “financiando” as tentativas de engravidar de mulheres, que rodeiam de cuidados para que o bebé nasça nas mais perfeitas condições.

Não concebo que uma mulher alugue o seu corpo como incubadora, nem tão pouco de um bebé que seja meio seu, meio do senhor que lhe compra o serviço, porque não concebo que um filho possa ser um negócio, porque a gravidez cria laços profundos que é leviano ignorar, porque recuso uma nova forma de exploração do corpo, uma exploração cruel que tenha por fim tirar um filho a uma mãe. Mesmo quando não está em causa dinheiro, parece-me um negócio impossível, porque nem com a melhor das intenções conseguimos deixar de ser mães dos nossos filhos, mesmo que se decida que são apenas ‘sobrinhos’, porque não podemos ser generosos com o que não é nosso, e uma criança não é uma propriedade de que podemos dispor. Porque os direitos dos adultos não podem ser superiores aos das crianças.

in Destak

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