Como sobreviver à familia?

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O belga Mony Elkaïm é um dos mais conceituados terapeutas familiares. Ele anda pelo Mundo inteiro a promover o seu livro Como Sobreviver à Própria Família.
"Quando temos filhos, esperamos não repetir o que julgamos terem sidos os erros de nossos pais. Prometemos a nós mesmos que seremos melhores, menos ou mais protetores,
menos ou mais severos, menos ou mais preocupados, dependendo do referencial do qual partimos. Mas, na prática, nem sempre isso funciona. Para romper o ciclo, Mony Elkaïm sugere eleger, nos pais, as coisas positivas, aquelas que gostaríamos de passar a nossos filhos. Claro que nem sempre é fácil fazer isso sozinho, e as terapias estão aí pra nos ajudar. O bacana da terapia familiar é tratar o sistema todo, as relações, ajudando a desfazer esses nós. Doutor em Medicina, Neuropsiquiatria e psicoterapeuta, Mony fundou a Associação de Terapia Familiar Europeia e, hoje, é diretor do Instituto de Estudos da Família e Sistemas Humanos, com sede em Bruxelas. Damos a palavra a ele.

 

Você diz que participamos da criação do contexto familiar do qual a gente se queixa. O único jeito de sair desse círculo vicioso é uma terapia familiar?

Existem situações em que a gente cresce quando o outro não repete aquilo que estamos esperando que ele repita. Vamos imaginar que cresci em uma família em que tive a impressão de não ter sido amado. Ao encontrar uma mulher, vou tentar provar que ela não me ama. Dessa maneira, não me exponho à desilusão de acreditar que alguém possa me amar e, depois, sofrer se essa pessoa vier a deixar de me amar. Se essa mulher não entra na dança de me rejeitar, então é possível que eu acredite que alguém consiga me amar. Nesse caso, minha mulher foi a minha psicoterapeuta. Infelizmente, isso é raro.

E, no caso da terapia, qual é a diferença de eu fazer uma psicanálise clássica, individual, e fazer uma terapia familiar? Por que a terapia familiar pode ser melhor? À terapia familiar interessa o sentido e a função de um problema no contexto em que ele aparece.

À terapia individual interessa o sentido e a função de um problema dentro de uma pessoa. Imagine uma família que tem uma filha deprimida. Assim que a filha melhora, a irmã dela começa a ficar anoréxica. Então, eu descubro que existe um problema com os pais, que faz com que as crianças não consigam se distanciar deles. Se eu conseguir ajudar os pais na resolução dos próprios problemas, a família não vai mais precisar criar sintomas para proteger os pais de seus conflitos como casal.

Às vezes nos pegamos tratando os filhos da mesma maneira como nossos pais nos tratavam – e não gostávamos. Isso é muito triste e frustrante. Como podemos quebrar esse processo?

É importante que você diga que os problemas das crianças não vêm dos pais. Os pais se culpam muito. Os filhos estão ligados a um conjunto de coisas: tem os amigos, o contexto social… e os pais. Então, é muito importante que os pais saibam que, quando os convocamos a participar de terapia de família, não é porque a gente pensa que a culpa seja deles, mas porque precisamos deles para ajudar no tratamento. Agora, a gente pode não ter sido bem tratado pelos pais e ter ficado com raiva. Aí a gente percebe que está repetindo a mesma coisa e ficamos surpresos. Por que a gente repete, então? Fazemos isso por lealdade inconsciente em relação aos nossos pais, porque não nos autorizamos a ir mais longe que eles. Mesmo que tenhamos sofrido com os nossos pais, temos dificuldade de superá-los. Então, dou um conselho: não fique chateado consigo mesmo porque você está repetindo aquilo que seus pais fizeram. Você é um excelente filho, está protegendo seu pai e sua mãe. Agora, escolha alguma coisa boa que você quer transmitir a seu filho e transmita. Cada vez que você repetir algo de que não gosta, diga a você mesmo: “Não é repetição, isso é um ato de proteção”. Isso vai ajudá-lo a superar esse círculo vicioso.

Só a terapia pode interromper esse processo?

O terapeuta, diferentemente de um marido que é rígido com os filhos e não ouve a mulher, por exemplo, é alguém que a escuta. Aí ela percebe que tem um poder que não sabia ter. Vai descobrir que o terapeuta respeita o que diz.

E essa mulher vai começar a “importar” para a vida do casal aquilo que ela aprendeu na psicoterapia, ou seja, que ela tem direito de ser ouvida. Aí o marido fica surpreso porque, agora, tem uma mulher que coloca limites. Este é o exemplo de como a mulher pode adquirir, com a psicoterapia, a capacidade de mudar sua relação com o marido e que vai ajudar o marido a mudar. Mas se eles estiverem em uma terapia de casal, a terapeuta buscará o que esse homem está repetindo – e que faz com que ele não escute a mulher. E a relação entre o terapeuta e os membros do casal muda o relacionamento entre eles. Porque, em uma terapia de casal, assim como em uma terapia individual, é a relação com o terapeuta que é o remédio.

No livro você cita o caso de uma mãe que grita com o filho por ele ser desobediente e sugere que ela tome uma atitude diferente, abraçando o filho. Mudar uma única atitude pode quebrar este ciclo?

Essa mãe me disse: “Eu não suporto que meu filho não me ouça”. Mas o filho tem um comportamento que é muito clássico, a gente chama ele à mesa e ele não vem. A gente fala para ele “vá dormir” e ele não vai dormir. Todas as mães conhecem essas atitudes. Mas a minha paciente fica muito brava; aí pergunto para ela: “O que você sente quanto ele age assim?”. E ela responde: "Sinto uma falta de respeito". Eu pergunto: "Mas quem é que está faltando com respeito com você?". Ela diz: "Meu pai!". Então, meu problema é como mudar essa relação. Eu digo para a mãe: “Da próxima vez que ele não obedecer, vai e diz para ele "Meu querido, que eu adoro e que não me obedece" e dá um beijinho na ponta do nariz dele". Ele vai ficar completamente surpreso, porque isso quebra a repetição.

Por que preferimos o sofrimento conhecido a uma situação nova, desconhecida, mas que poderia ser melhor para nós?

Atualmente estou atendendo um casal, do qual eu gosto muito. Gosto muito dos meus pacientes. E preciso gostar muito deles para poder compreendê-los melhor e para falar com eles de uma forma que se sintam compreendidos e, ao mesmo tempo, surpreendê-los. Porque, se eu apenas os compreender, não será suficiente. O marido tem uma amante, e a mulher me diz: “Eu quero que o meu marido pare de ver essa amante”. E o marido diz: “Na casa dos meus pais ninguém cuidou de mim. Eu me casei com minha mulher e nunca pedi para que ela cuidasse de mim. E estava contente assim. Só que encontrei uma amante que cuida de mim e descobri como é bom quando cuidam de mim. Mas preferia que fosse minha mulher essa pessoa que cuida de mim”. Então, em uma das sessões, ele disse à mulher: “Vou largar a minha amante e voltar para casa. A gente vai tentar, com a ajuda do Elkaïm, que você cuide de mim”. Aí ele volta para casa, e a mulher diz a ele: “Vai embora!”. E ele: “Não! Eu voltei. Quero ficar com você!”. Ela telefona para a amante e diz: “Ele vai voltar para você, mas seja boazinha com os meus filhos”. Então, a amante telefona para o marido e diz: “Eu não estou entendendo nada dessa história. Você me diz que vai me deixar e sua mulher liga dizendo que você vai voltar”. A mulher me fala: “É uma loucura. Eu prefiro que ela fique com ele. Por quê? Porque tenho medo de que ele volte e que não dê certo entre a gente. Eu tenho medo de não conseguir cuidar dele”. Então, o que a mulher vai fazer? Ela vai programar um fracasso; ela prefere programar do que correr o risco de um fracasso. Para ela, machuca menos o marido ter uma amante do que tentar a proeza de voltar com ele.

Por que, para nós, é tão importante a sensação de controle? Por mais que o resultado seja algo negativo, contanto que seja previsível, a gente acha que tudo bem…

Se eu penso que gosto de você e que você vai me deixar, eu tenho tanto medo de que isso aconteça que não durmo mais, não como mais. Se você olha para um homem, eu já vou dizer que você vai me deixar. Eu prefiro, então, prever o fracasso, porque vou ficar triste, mas, pelo menos, vou dormir tranquilo, porque já aconteceu. É humano! E é compreensível.

Em outra parte do livro você fala que não é por eu ter razão que o outro está errado. É mais importante ter razão do que ser feliz?

Somos educados da seguinte maneira: se eu tenho razão, você está errado. E se você tem razão, eu estou errado. Gostamos de acreditar que existem os bons e os maus. Os bons sofrem, sofrem e sofrem e, aí, eles se revoltam e ganham. Mas existem situações em que os dois têm razão e cada um se sente vítima do outro. Para o terapeuta de casal, o paciente não é o homem ou a mulher, nem o pai ou o filho, não é a mãe nem os filhos. É a relação. Eu posso estar do lado da mulher 100% e posso estar do lado do marido 100%. Meu problema é o relacionamento.

Você diz também no livro que a gente só procura sair disso quando está sofrendo muito…

Algumas vezes a gente sofre, e quer continuar sofrendo, porque pelo menos esse é um sofrimento conhecido. Mas algumas vezes acontecem crises,um momento limitado no tempo em que somos capazes de largar essa situação. É como uma janela. Há momentos em que o sofrimento cria a crise e a crise pode criar mudanças, mas a crise também pode criar a volta à situação anterior. Você tem casais em que um dos dois vai embora regularmente e volta.

E o que isso significa?

Imaginemos que eu seja alguém que quer que você cuide de mim, porque ninguém nunca cuidou de mim. E como você não cuida de mim, eu vou embora. Mas, ao mesmo tempo, não acredito que alguém possa cuidar de mim, então volto. Só que eu continuo querendo que você cuide de mim e, como você não o faz, eu sigo muito infeliz com isso. Esse tipo de situação faz com que a gente peça alguma coisa que a gente não acredita que é possível acontecer e, quando acontece, sentimos medo. A terapia ajuda a gente a ter uma melhor imagem de nós mesmos e a aceitar que temos direito a mais.

Achei interessante quando você diz, no livro, que é possível trocar nossa armadura protetora por um escudo. Explique esse conceito melhor pra gente.

A armadura me protege, mas me impede de sentir o vento nos meus cabelos e o sol na minha pele. O escudo me protege quando é necessário, mas não me protege quando não é necessário. Eu não quero que meus pacientes abandonem a armadura e fiquem nus; quero que eles tenham um escudo e que possam utilizá-lo quando for necessário. Assim, eles não vão voltar logo para a armadura. É importante, para mim, que a pessoa possa se proteger quando é necessário e não quando não é necessário. Mas eu não quero que as pessoas fiquem sem proteção. Essa é a diferença entre a armadura e o escudo: um nos fecha; o outro é facultativo, é opcional, usamos só em caso de ameaça, não o tempo todo."

in Pais e Filhos Brasil
Texto enviado por Simone Pitiricá

 

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