Crianças com doenças de gente grande

Doenças características dos adultos afectam cada vez mais as crianças. A obesidade é a grande vilã e pode levar à hipertensão, diabetes tipo 2 ou à depressão. Exercício, alimentação correcta e acompanhamento médico são essenciais.

Uma consulta de cardiologia preventiva para crianças e adolescentes vai arrancar em Fevereiro no Hospital de Santa Marta, em Lisboa. Evitar que crianças com hipertensão arterial e com uma história familiar de enfarte venham a ter doenças cardíacas é o objectivo da consulta. Pediatras, psicólogos e nutricionistas farão parte da equipa do serviço de referência. “Queremos prevenir e alertar a evolução das doenças cardíacas na vida adulta. Se não investirmos em prevenção, as doenças relativas ao envelhecimento vão aumentar entre as pessoas mais jovens devido às mudanças impostas pela vida moderna”, sublinha a cardiologista pediátrica Fátima Pinto, coordenadora do serviço.

O facto é que doenças características de adultos – como as cardíacas, diabetes do tipo 2 ou depressão – estão a afectar crianças e adolescentes. “As crianças estão a adquirir doenças de adultos na medida em que males que costumam surgir aos 50 ou 60 anos manifestam-se na infância e na adolescência em razão de maus hábitos”, explica a médica.

Para além da predisposição genética é a alteração profunda no quotidiano – que inclui alimentação, trabalho e escola, actividade física e de lazer e as relações familiares – que está a antecipar o aparecimento destes problemas. “Algumas doenças que chamamos de adulto começam a manifestar-se nas crianças. A obesidade na infância é a mais grave, tem como consequência o surgimento de riscos cardíacos, de diabetes do tipo 2, de artroses e hipercolesterolémia”, alerta a endocrinologista Lurdes Sampaio, do Hospital de Santa Maria. “Ou seja, as doenças de adulto nas crianças aparecem como decorrência de um problema, e o mais preocupante é a obesidade.”

Portugal não possui dados notificados sobre obesidade infantil e suas decorrências nas crianças e adolescentes. Mas basta circular pelos centros comerciais, observar as escolas e estar atento aos conteúdos veiculados pelos media para se observar o crescimento do número de crianças obesas.

“Temos atendido crianças obesas que apresentam um conjunto de sintomas decorrentes, como hipertensão arterial, índices anormais de colesterol e diabetes do tipo 2. Nalguns casos depressão que precisa de terapêutica específica”, diz Fátima Pinto.

As doenças respiratórias, asma e alergia também aparecem mais cedo, na experiência da pediatra Sandra Caetano. “Aspectos como a poluição, o tabagismo dos adultos, o facto de passarem muito tempo em ambientes fechados ou pouco arejados, potenciam o aparecimento das doenças respiratórias. As crianças são mais sensíveis e frágeis. O seu sistema imunitário está a desenvolver-se”, observa a médica.

Uma doença torna-se adquirida, crónica quando persiste por mais de seis meses . “A obesidade é crónica. Uma criança que desenvolver doenças associadas a este problema, como a diabetes ou a hipertensão, mesmo que controle a sua condição, não estará curada. Este indivíduo deverá ser vigiado e tratado”, alerta Lurdes Sampaio.

Aos problemas físicos da obesidade acrescentam-se outros prejuízos: o impacte psicossocial nas crianças, adolescentes e suas famílias. Deixar de participar em brincadeiras pela falta de energia, faltar a aulas, insucesso escolar, consultas médicas e uma rotina de medicamentos são algumas das dificuldades sofridas por estes doentes,

Para eliminar este “flagelo” a médica Fátima Pinto repete a receita: “A família como um todo precisa de se alimentar bem, não só no conteúdo, mas na forma, no ritmo de comer.” “Fazer exercício físico, sair dos centros comerciais e ir a parques, desligar a televisão e o computador. Se não houver uma mudança educacional, de mentalidade, as doenças cardíacas aparecerão cada vez mais cedo”, alerta.

in DN

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