Crónica de uma grávida vacinada

É segunda-feira de manhã. Venho de um fim-de-semana descansado em que, ao contrário do usual, não olhei para jornais, revistas ou televisão.

Foram quatro dias de “arrumação de vida”, tarefa que se afigurava urgente considerando que estou agora de 35 semanas de gravidez, tenho uma filha de dois anos e um doutoramento alegadamente em fase terminal.

Hoje não resisti, portanto, em pôr as notícias em dia. Mais uma vez fui tentada a olhar para o tema que me vem ocupando, ou preocupando: a vacinação das grávidas contra o vírus H1N1.

E fui igualmente tentada a colocar um post de comentário às notícias que surgem na comunicação social. Optei, ao invés, por escrever este texto. Devo dizer que não sou diferente das 55 mil grávidas que, confiando nos números avançados pela comunicação social, optaram pela não vacinação.

Estive, e estou, como tantas outras futuras mães, indecisa, duvidosa e vacilante. Vacilei, por um lado, entre um obstetra, em quem confio plenamente, que me disse que nim, a comunicação social que comunicava, ou salientava?, os casos dramáticos de grávidas que tinham perdido os seus bebés depois da vacinação, os exemplos de países que optaram por uma outra vacina para as grávidas e, por outro lado, as recomendações da OMS e da DGS (esta última parece agora mais ocupada a justificar a aquisição das doses de vacina) e a opinião, ponderada (porque ninguém conhece integralmente os riscos da vacina), da pediatra da minha filha e do tio-médico da família.

Ponderei as opiniões, e não os prós e os contras da vacina porque a desinformação é imensa (especialmente para uma jurista) e, na quarta-feira, decidi-me pela vacinação.

Decidi confiante de que, perante os dados disponíveis, estava a proteger melhor não só a mim mas, principalmente, o bebé que nascerá no pico do Inverno e conta essencialmente com as minhas defesas para singrar nos primeiros meses de vida.

Tomada a decisão, liguei para o meu Centro de Saúde para saber qual a melhor hora para tomar a vacina. “Venha depois do almoço, porque está tudo mais calmo na sala de espera”. (No meu Centro a campanha da vacinação não tem «hora marcada» e a sala de espera acomoda, por vezes, mais de 30 pessoas que, tendo tirado a senha, aguardam a sua vez). Assim fiz.

Foi com espanto, e uma certa dose de orgulho neste meu país, que entrei numa sala de espera praticamente vazia e num centro de saúde muito calmo e prazenteiro. Apresentei-me para a vacinação.

“Estamos em ruptura de stock. Não há vacinas. Talvez volte a haver na segunda-feira. Vá tentando”. Não fiz reclamação nem argui os meus direitos e as informações erradas que me foram prestadas ao telefone. Fiquei, acima de tudo, desalentada. Tinha tomado a decisão, era grupo de risco e, afinal, só, talvez eventualmente, daí a 5 dias é que me iria vacinar.

“Mas pode ir a qualquer outro Centro de Saúde que tenha a vacina”. “Qual?” Perguntei. “Isso não sabemos. Só sabemos que Sete Rios também está em ruptura de stock”. Estava decidida a vacinar-me naquele dia e comecei a percorrer a lista telefónica.

Finalmente atenderam-me. Centro de Saúde da Lapa. “Sim, temos a vacina. Não, não se pode vacinar. Só vacinamos os utentes da Lapa. Pois, tem direito a ser vacinada… Então deixe-me passar à Senhora Enfermeira. "Pois, compreendo a sua situação. Mas nós temos instruções: só vacinamos utentes da Lapa … o melhor talvez seja falar com a Administração do Centro”. Passei do desalento para a fúria. Falei calmamente com a Administração e, sem grandes problemas (será que ser jurista foi relevante?), inscreveram-me na vacinação. Esperei mais de duas horas, no carro (porque a sala de espera estava muito cheia) e fui vacinada.

Perante o que me aconteceu leio, com algum espanto, as notícias sobre a vacinação das grávidas. Será que a Senhora Ministra sabe quais são, no campo, as condições de vacinação? Será que sabe que, para além da opção pela vacinação, uma grávida corre ainda o risco de contrair o vírus durante as horas de espera no Centro de Saúde? Será que a Senhora Ministra sabe que as indicações que os Centros de Saúde têm são no sentido de que “só vacinam os seus utentes”? Será que a Senhora Ministra sabe que há Centros de Saúde em ruptura de stock?

Satisfazendo curiosidades… até agora, dores no braço e um ligeiro mal estar. Se estou tranquila com a minha opção? Não. Estou confiante que decidimos (porque o meu marido também participou no processo decisório) da melhor forma possível, considerando os dados de que dispúnhamos. Temos a sorte de ser seguidos por médicos em quem confiamos e que saberão certamente mais do que nós.

Ontem o bebé resolveu acordar mais tarde do que o costume. Só se mexeu perto das dez da manhã e eu fiquei muito preocupada. Estamos agora mais cientes dos riscos de o bebé não ser perfeito (riscos que já existiam com a nossa primeira filha e que, na altura, assumimos como fazendo parte da vida e que, agora, atribuímos à decisão da vacinação).

Ter-me vacinado é, racional ou irracionalmente, um peso que carrego. A este peso dei já um nome. Chama-se «confiar».

O nosso filho poderá vir a ter mau feitio, não ser especialmente bonito e ter muito pouco jeito «para as artes». Se disserem que é parecido com a mãe, contraporei apenas “sabe, é que eu tomei a vacina…”

in http://www.destak.pt/artigo/47335

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