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Cyberbullying: quando o miúdo franzino pode tornar-se poderoso

Cyberbullying: quando o miúdo franzino pode tornar-se poderoso
do Bebé

criancas bullying 823As vítimas de bullying tornam-se muitas vezes agressores no cyberbullying. Estudo europeu de 2014 reporta que 5% dos miúdos portugueses dos 9 aos 16 anos dizem ter tido experiências de cyberbullying alguma vez na vida.

Maria tem 16 anos, é sociável, popular e bonita, uma excelente aluna, esteve no quadro de mérito na escola secundária onde frequenta o 10º ano. Tal como cerca de 70% dos adolescentes portugueses, tem um perfil numa rede social. Alguém pegou numa das fotografias que tinha no seu Facebook, em que estava numa festa de casamento, muito produzida, com sapatos de salto alto. Depois criou com essa imagem um perfil falso onde alguém a critica por não ter idade para andar com aquelas roupas, diz que dorme com muitos rapazes e chama-lhe “nomes feios, muito feios, começados por p.”, conta a mãe, funcionária pública de 48 anos, que anda há um ano em tribunal a tentar descobrir quem fez aquilo à filha. Maria foi vítima de cyberbullying.

 

É uma nova forma de violência que amplia as consequências do bullying presencial. Trata-se de usar a Internet como meio para difundir ameaças, difamações e violência psicológica. “O bullying são quatro ou cinco pessoas a assistir e a incentivar no momento. No cyberbullying a audiência é potencialmente infinita”, diz o psicólogo João Faria. Podem ser usadas as redes sociais, as sms, o twitter. O estudo europeu Net Children Go Mobile, reporta que 2% dos miúdos portugueses dos 9 aos 16 anos dizem ter tido experiências de cyberbullying alguma vez na vida (dados de 2010), número que subiu para os 5% em 2014. A média dos sete países europeus estudados é de 7%.

No bullying presencial “o perfil das vítimas é mais evidente”, são muitas vezes os mais fracos. “São os mais franzinos, os gordinhos, ou que usam óculos, ou tem dificuldades cognitivas. A vítima do cyberbullying é mais difusa”, diz a psicóloga do Hospital Amadora-Sintra Filipa Fonseca, que nos últimos dois anos tem começado a receber casos deste tipo. A vítima pode ser alguém como Maria (nome fictício). “Ela nunca teve problemas na escola, sempre teve imensos amigos”, conta a mãe.

O bully (agressor) também já não é necessariamente “o miúdo forte com as costas quentes, o miúdo franzino torna-se poderoso”, nota João Faria, psicólogo que coordena o Núcleo de Intervenção na Internet e nas Telecomunicações, na Progresso Infantil, um centro especializado em perturbações do desenvolvimento das crianças, em Carcavelos.

“Há muitas vezes uma inversão. As vítimas de bullying tornam-se muitas vezes agressores no cyberbullying.” E lembra um caso que acompanhou de um miúdo que sofria de uma perturbação do espectro do autismo, que tinha sido vítima de bullying na escola, que passava o tempo em casa, muito isolado. “Fez um vídeo demolidor dos seus agressores.”

Enquanto o bullying presencial acontece muitas vezes no espaço da escola e esta não pode desresponsabilizar-se, no caso do cyberbullying a experiência de João Faria é que as “escolas tentam sacudir a água do capote”. Afinal, as “agressões são muitas vezes feitas a partir de casa”. “As escolas querem desresponsabilizar-se, as famílias querem responsabilizar as escolas”. “Na era dos smartphones ainda torna mais complexo este fenómeno”, diz Jose Ilídio Sá, investigador do Departamento de Educação da Universidade de Aveiro, que fez a sua tese de doutoramento sobre este fenómeno.

Os perigos da rapidez

Iniciar um rumor já podia ser uma arma psicológica, a diferença é que na sua versão electrónica –  quer através da criação de falsos perfis ou tornando públicas fotografias de situações íntimas ou embaraçosas – tudo acontece muitas vezes “de forma impulsiva”. “Não reflectem e depois de colocar posts às vezes arrependem-se”, constata a psicóloga. Além da dimensão da audiência, outro dos grandes riscos “é a rapidez com que tudo é executado”, nota João Faria. “Qualquer zanga pode dar azo a difamações para os contactos”, junta Filipa Fonseca.

O problema é que “o mundo não os está a ajudar a esperar, está a empurrar para a impulsividade”, diz João Faria que dá um exemplo muito concreto, quando nos restaurantes se vê pais a darem às crianças um Ipad enquanto esperam pela comida. “Não estão a esperar. É preciso deixá-los estar com os seus pensamentos, a divagar.” Filipa Fonseca constata que “no campo social estão pouco habituados a esperar para resolver os seus problemas. É preciso treinar a espera”, alerta a psicóloga do Amadora-Sintra.

“É preciso trabalhar questões da auto-regulação, da impulsividade”, acrescenta. Há um termo novo que se chama regras de “netiqueta” e que trata de ensinar o respeito pelo outro online, como por exemplo mandar uma mensagem e não insistir logo para ter uma resposta imediata. “Pensa antes de publicar” é uma das mensagens de um cartaz criado por uma agência irlandesa, a Fuzion, depois de dois casos de bullying electrónico no país que conduziram ao suicídio. O site português de promoção do uso seguro da Internet por crianças, MiudosSegurosNa.Net, convida à sua divulgação.

Ver, comentar, fazer “gostos” numa página com difamações não é sentido por muitos como “cumplicidade”. “É preciso dizer-lhes que não são meros espectadores”, diz Filipa Fonseca. José Ilídio de Sá diz que existe “quase um pacto de silêncio. Os jovens acham que não se devem intrometer em contendas entre colegas” e temem que “ao queixarem-se poderão também ser objecto de agressão”. O investigador diz que se o jovem decide denunciar a professores ou à direcção da escola, e “nada acontece”, a confiança perde-se.

Medo de ficar sem computador

Nalguns casos, os miúdos não contam o que lhes está a acontecer. Às vezes não dizem nada aos pais precisamente com medo de ficarem sem o computador ou o smartphone, constata Filipa Fonseca. Não foi isso que aconteceu com Maria. Mal soube do perfil ligou à mãe e isso fez toda a diferença. “Temos uma relação muito próxima, muitas amigas dela diziam-lhe: ‘se fosse eu não contava aos meus pais’”.

O que os pais de Maria têm feito com a filha é desvalorizar o que aconteceu. Dizem-lhe “não ligues, não é importante, toda a gente sabe que aquilo é mentira”. “O que vale é que ela tem uma personalidade forte”, diz o pai, mas acrescenta que miúdos mais frágeis, “sem apoio familiar, podem ir-se abaixo”. No caso dela, desconfiam que terão sido raparigas, colegas da escola, a criar o perfil falso, por causa do tipo de linguagem e pela forma como comentam a roupa. Terá a ver com “invejas de namoricos de miúdos”, diz o pai.

Desde que aquilo aconteceu passaram a estar muito mais vigilantes ao seu uso da Internet, visitam regularmente o perfil da filha, de quem são “amigos”. E a filha passou a estar proibida de publicar determinadas fotografias no seu perfil, seja de fato de banho ou com decotes. “Esse tipo de fotos não são para as redes sociais.”

in http://www.publico.pt/

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