Depressão Infantil

 

"Nasci de um azar entre o meu pai e a minha mãe" (Tiago, 14 anos)

"Não presto para nada… em minha casa só sirvo para arranjar problemas a toda a gente" (Francisca, 9 anos)
(cit. in. Strecht, 2003)


A depressão na criança difere em larga escala da depressão no adulto, sendo muitas vezes difícil o seu reconhecimento. Por um lado, não se deve banalizar a palavra "depressão", dado que uma criança triste não significa necessariamente uma criança deprimida. A tristeza pode acontecer pontualmente na vida de uma criança, tal como acontece na nossa vida. Todos nós já tivemos momentos em que nos sentimos mais tristes, mais reservados e até chorosos, porque algo não nos correu bem ou por outro motivo. Ora, as crianças também podem estar tristes pelos seus próprios motivos, seja porque um coleguinha da escola não a deixou brincar um dia com o grupo ou não lhe emprestou aquele brinquedo que tanto a agradava ou até porque não se portou tão bem e o pai ou a mãe a repreendeu. Mas isto serão acontecimentos pontuais…
No entanto, devemos ficar sempre atentos ao comportamento da criança. Se, por exemplo, esta tristeza se prolonga no tempo e começa a afectar significativamente seu o bem-estar, o seu aproveitamento escolar, o convívio com outras crianças, então constituirá, sem dúvida, um sinal de alarme, que poderá ou não indiciar a presença de uma depressão, mas sem dúvida que transmite que algo não está bem com a criança, existe algo que a angustia e entristece e é esse algo que necessita de ser resolvido o mais precocemente possível, daí a necessidade de recorrer a um técnico especializado.

Mas como se poderão então reconhecer os sinais de alarme?

A criança depressiva é, muitas vezes, descrita como alternando entre movimentos de retirada, inércia, ausência, submissão e indiferença ou, pelo contrário, extrema agitação, instabilidade, cólera e comportamentos de oposição marcados. Por vezes, assiste-se à ocultação de sentimentos de desvalorização e culpabilidade.
Caso se trate de uma criança mais nova, é comum encontrarmos sintomas psicossomáticos, ou seja, sintomas corporais que surgem sem que haja uma verdadeira causa/ doença física (por exemplo, eczemas, vómitos, tonturas, dores sem explicação). No entanto, é possível que a depressividade na criança se associe, igualmente, a uma doença física: por exemplo, uma criança com uma doença crónica e cujas hospitalizações sejam frequentes, poderá estar simultaneamente deprimida e doente. Por vezes, assistem-se também a comportamentos regressivos, ou seja, a criança volta a adoptar comportamentos de quando era mais pequenina, como por exemplo, voltar a fazer chichi na cama (enurese), usar chucha, biberão e ter brincadeiras de crianças mais novas.
Nas crianças mais velhas, é frequente assistirmos a dificuldades de concentração, sentimentos de inferioridade, diminuição do rendimento escolar, falta de confiança em si mesmas, perda de interesse nas suas actividades favoritas, isolamento social (a criança praticamente não brinca e isola-se do seu grupinho), instabilidade, agressividade e atitudes provocatórias.
Os problemas de sono (insónias, pesadelos) e de alimentação (perda de apetite ou apetite exagerado) também poderão estar presentes.

Então e o que provoca a depressão na criança?

Muitas vezes, a depressão infantil é causada por uma perda, seja ela real (por exemplo, a morte do pai e/ou da mãe ou de alguém igualmente próximo) ou simbólica (por exemplo, a "ausência" emocional dos pais para com a criança, ou seja, estão fisicamente presentes, mas não demonstram disponibilidade para ela.
Por vezes, algumas alterações no ritmo de vida da criança e que, inevitavelmente, apelam às suas capacidades de adaptação (por exemplo, entrada para a escola, separação parental, nascimento de um irmão), poderão ser ultrapassadas com maior ou menor dificuldade, podendo dar lugar a reacções depressivas em algumas crianças.

Draª Ana Sousa
(Psicóloga Clínica)
Especialista doBebe.com

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