Desenho Infantil

bebe_desenho_crianca

O desenho da criança é um dos temas que mais interesse desperta em mim no campo da Psicologia por ser, simultaneamente, um veiculo de comunicação simples e complexo.O desenho traduz a compreensão que a criança tem do mundo e também uma tentativa de conferir ordem, sentido e conhecimento a tudo aquilo que a rodeia .De um modo geral, podemos definir os seguintes estádios da produção artística da criança:

* A criança de 2 anos garatuja. Existem 20 garatujas básicas, sendo as mais comuns as linhas verticais, horizontais e em ziguezague. Neste primeiro estádio, a criança interessa-se principalmente pela colocação das garatujas.No estádio dos rabiscos, o entusiasmo motor é quem comanda e a criança não está minimamente preocupada com a aparência final do seu desenho, se bem que fique agradada com o facto dos seus movimentos vigorosos deixarem marcas visíveis no papel. O facto da criança estar a desenhar sobre manchas e linhas que acabou de fazer não deve ser alvo de preocupação por parte do adulto, pois a criança está a explorar os limites dos seus movimentos;

* Por volta dos 3 anos, temos o estádio da forma, em que a criança desenha 6 formas básicas: círculos, quadrados, rectângulos, cruzes, X’s e formas irregulares. O estádio da forma dá rapidamente lugar ao estádio do design, em que a criança combina duas formas básicas num padrão abstracto mais complexo (por exemplo, um circulo com uma cruz ou um quadrado dentro de um rectângulo).Nestes estádios, a criança manifesta uma grande dose de concentração e cuidado na elaboração de formas geométricas. Algumas crianças começam, aqui, a deitar a língua de fora enquanto desenham!

* Entre os 4 e os 5 anos, encontramos o estádio pictórico, em que os desenhos sugerem objectos reais ou pessoas.A partir deste estádio, o desenho da criança é progressivamente mais detalhado e diferenciado (por exemplo, desenhar um menino e uma menina, desenhar um bebé e uma pessoa idosa…).Diz-nos Golomb, um estudioso da temática do desenho da criança, que os desenhos mais precoces de humanos e de animais são muito semelhantes e é esta falta de diferenciação que estimula a criança a alterar a figura, a juntar marcas definidoras que distingam a pessoa do animal. Por exemplo, a pessoa tem dois pés e é desenhada num plano vertical e os animais são desenhados num plano horizontal porque têm quatro patas.Independentemente da criança estar a fazer desenhos e pinturas mais simples ou mais detalhadas, importa estarmos atentos àquilo que a criança desenhou e não àquilo que ela não desenhou pois:

a) a criança pode considerar uns aspectos prioritários e outros acessórios, não contemplando estes últimos no seu desenho;

b) a criança pode não ter espaço suficiente na sua folha para acomodar os aspectos em falta;

c) o item poderá ser difícil de representar, pelo que a criança o poderá substituir por uma descrição verbal.São muitos os pais que se preocupam com a elaboração artística dos seus filhos: “Ele/a já tem x anos e só rabisca…” ou “Quando sugiro ao/à meu/minha filho/a que ele/a desenhe isto ou aquilo, ele/a parece que não sabe como o fazer e o pior é que já tem idade para isso…!” ou “Quando peço um desenho ao/à meu /minha filho/a, ele/a diz que não sabe desenhar…parece que desiste antes de tentar.”.Como poderemos nós, pais, auxiliar os nossos filhos a reproduzir no papel a sua imaginação ou a sua elaboração mental de tudo aquilo que os rodeia?Eis algumas sugestões:

* Dar à criança uma grande quantidade de papel: folhas brancas ou de rascunho, de diferentes tamanhos, incluindo até rolos de papel;

* Colocar à disposição da criança uma ampla gama de materiais para pintura e desenho: tintas, pincéis, marcadores, lápis de cor, lápis de carvão…;

* Dar tempo e apoio para que a criança explore e ganhe competência com os materiais de desenho: tal com um arquitecto esboça primeiro o seu projecto, a criança experimenta as cores e os traços antes de começar a usar os materiais para reproduzir imagens que representem objectos ou pessoas. Assim, torna-se necessário proporcionar á criança tempo para esta exploração. De facto, este tempo é essencial para a criação de significados, para o desenvolvimento de uma compreensão profunda e rica das propriedades físicas e visuais dos materiais;

* Enquanto a criança pinta e desenha, observemos e ouçamos o que ela diz: é importante que o adulto descubra, a partir da criança, aquilo que ela está a desenhar e a pintar. Uma das formas de o fazer é sentarmo-nos junto da criança e limitarmo-nos a ver e a ouvir. Ouvir e observar o trabalho em progresso dá-nos uma visão daquilo que o desenho significa para a criança. O facto de a estarmos a ouvir a criança enquanto ela desenha (por exemplo, “Agora vou desenhar um cavalo…”), confere-lhe um extraordinário sentido de competência e de valorização por parte dos adultos, sobretudo os pais, que são os seus modelos de referência;

* Falar com a criança sobre os seus desenhos: com frequência, quando a criança termina um desenho, deseja mostrá-lo a alguém que tenha tempo suficiente para olhar para ele e demonstrar o seu apreço pelo que foi feito. Quando o nosso filho nos traz um desenho e/ou nos chama para ver a sua criação, temos em mão uma oportunidade muito rica para nos envolvermos num diálogo sobre o que a criança desenhou. Ao “estudar” com a criança o que ela desenhou, podemos compreender os seus pensamentos e aquilo que tenta ou tentou expressar.Por exemplo:

“Criança: Olha!

Adulto: (Olha para e observa o desenho da criança)

Criança: Esta é a mãe…e o bebé.

Adulto: Muito bem, a mãe e o bebé.

Criança: O bebé está a segurar a cauda da mãe…não se quer perder.

Adulto: Ah…pois é! Tu achas que o bebé quer estar ao pé da mãe?

Criança: Sim, por causa dos crocodilos!

Adulto: Pois é, tens toda a razão…A mãe e o bebé têm riscas, não têm?

Criança: É porque são zebras! Têm riscas…a relva também tem riscas…

Adulto: Tens toda a razão, apesar da zebra ter riscas pretas e brancas e a relva riscas verdes…”

Assim, o reconhecimento e o feedback positivos são essenciais para reforçar o sentido de competência da criança:

* Quando dermos um passeio com os nossos filhos, podemos pedir-lhes, ao chegar a casa, que desenhem o que mais lhes agradou nesse mesmo passeio. Por exemplo: “Hoje fomos ao jardim zoológico! Gostaste? O que dizes a um desenho sobre o que gostaste mais de ver no jardim zoológico?;

* Oferecer à criança modelos que ela possa reproduzir para uma folha de papel. Por exemplo: “Ontem fomos ao supermercado e compramos maçãs. Vamos desenhar uma maçã? Vou buscar-te algumas maçãs de cores diferentes…pode ser que queiras olhar para elas enquanto desenhas…”;

* Se os pais tiverem um animal doméstico em casa, podem seguir o exemplo acima e pedir à criança que faça um desenho do cão, do gato, do peixinho…com ou sem modelo, conforme agradar mais à criança;

* Expôr num local visível os desenhos da criança, por exemplo, na porta do frigorífico, num placard do escritório…tal reforça o sentimento, por parte da criança, que os pais valorizam as suas obras de arte, o seu esforço e o seu sentido de competência.Por último, deveremos optar por um livro para colorir ou pelas folhas brancas, que incentivam ao desenho livre? Penso que ambas as modalidades são bem-vindas. O livro para colorir ajuda a criança a desenvolver a concentração. As linhas de demarcação pré-definidas não a limitam na sua imaginação, longe disso! Essas mesmas linhas poderão, inclusive, servir de trampolim para que a criança tome a iniciativa de desenhar formas mais elaboradas. Para além disso, as linhas demarcadas reforçam a ideia de que, também na vida, há contingências a respeitar. A folha branca dá livre curso à imaginação e, por isso, deverá ser o mais ampla possível para que a criança exprima a sua visão  do mundo, mundo esse que concerteza não será pequeno!

Dra Sofia Sousa
Psicóloga Infantil
Especialista doBebe.com
http://acegonhacorderosa.blogspot.com/

Tags from the story
Written By
More from

Livros da Imaginarium

Dê asas à imaginação e mergulhe em histórias fantásticas!
Read More

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *