Doze bebés abandonados em 2009

No ano de 2009, em quatro das maiores maternidades do país, foram rejeitados 12 bebés pelas mães, após o parto. Quantos o foram no país inteiro, não se sabe, porque Portugal não dispõe dessa estatística.

Rejeitados porque as mães não conhecem o pai da criança, porque aquelas não têm estrutura emocional, porque, simplesmente, não cabia nos planos ter um filho. Engravidam, carregam-no nove meses dentro de si, mas após o parto deixam-no no hospital, para futura adopção. Para melhores dias. É o caso do Filipe, filho de mãe portadora de HIV; ou Pedro, filho de menina universitária a quem drogaram em noite de festa e que não sabe quem a engravidou; é o caso de muitos outros.

No total, não sabemos quantos, porque Portugal não tem essa estatística. Não estão contabilizados os bebés que ficam no hospital, entregues pelas mães após o parto, para futura adopção; não estão contabilizados aqueles cujas mães simplesmente os abandonam na maternidade, tendo dado nome e morada falsa; e muito menos os que foram encontrados jogados num qualquer sítio público. Cada hospital tem a sua estatística.

Nas quatro maternidades contactadas, os números dão conta de 12 bebés rejeitados: cinco no Amadora-Sintra; três na Alfredo da Costa (ambos em Lisboa); três na Júlio Dinis; e um no S. João (as duas unidades no Porto).

"Às vezes, tenho mais pena da mãe do que do bebé. Eu sei que o bebé terá quem o adopte, terá uma família. Mas a mãe vai carregar isto a vida toda e muitas vezes toma esta decisão com muita dor", salvaguarda a médica Ana Margarida Alexandrino, da Maternidade Júlio Dinis, no Porto, onde este ano se realizaram 4500 partos. Muitas vezes, deixa-o para trás com muita dor "mas corta um ciclo, uma história familiar com imenso desamor", explica.

Ou não. "A mãe universitária quis ver este episódio apagado da sua vida. Foi a uma festa, drogaram–na e ela de nada se lembra. Engravidou, mas sem saber quem era o pai da criança", conta a médica.

Já o Filipe nasceu de uma mãe portadora de HIV. Diz a médica que "esta mãe fez um pré-natal exemplar para proteger o filho da infecção", mas sempre com a ideia de ele ser dado para adopção.

Todos estes casos, aqueles em que a entrega é feita com dor e aqueles em que é feita com o alívio de quem carregava um fardo, passam pelo Serviço de Acção Social do hospital em causa. Na Júlio Dinis passam pelas mãos da assistente social Rosa Areias. O mais importante, frisa, é "ter-se a certeza de que a mãe quer mesmo entregar o bebé, de que não está a ser pressionada para fazê-lo, ou de que não está a fazê-lo por falta de dinheiro, porque para isso há solução", garante.

A tónica é muitas vezes colocada nas questões económicas, mas, diz a médica Ana Margarida Alexandrino, "não devia". "Porque a estrutura interna é a mais importante. Se a mulher não se sente preparada para ser mãe…". "Pode até ser um acto de amor entregá-lo para que, um dia, alguém cuide dele como deve ser", completa a assistente social Rosa Areia.

Para estas duas especialistas, as histórias já não são vividas com julgamentos sumários e culpados. Resolvem-se antes na medida do possível. Mais complicados do que um cenário de rejeição – em que a mãe não quer o bebé e autoriza a adopção – é o do total abandono, em que nem se imagina quem é e como encontrar a mãe. Estes, contudo, quase não têm expressão estatística.

Para quem está do lado de fora, fica sempre na tristeza aquele bebé que, ao contrário dos outros todos, não tem os pais ou a sua mãe ao lado.
 
in http://jn.sapo.pt

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