É necessário que não se associe o bullying a coisas de miúdos”

Tânia Paias, psicóloga clínica e coordenadora do Portal Bullying, defende que é preciso desconstruir conceitos, trabalhar as emoções e debater questões de cidadania nas salas de aula.  
 
Os pais devem promover o diálogo, estar atentos, participar na vida dos filhos, fomentar uma liberdade controlada. Os jovens devem compreender os valores individuais e grupais e sentirem que em casa há apoio e compreensão. As escolas devem responsabilizar os actos de quem pratica bullying e proteger as vítimas. Tânia Paias, psicóloga clínica e coordenadora do Portal Bullying, defende uma intervenção em várias frentes.

Há sempre motivos para preocupações quando se fala de bullying. "O necessário é que não se associe o bullying a coisas de miúdos", salienta. Por outro lado, Tânia Paias recorda que há estudos que revelam que os casos de bullying estão a diminuir e que as escolas estão atentas ao fenómeno e a implementar medidas de combate e prevenção.

"É necessário que os próprios adolescentes possam ser agentes activos na disseminação do bullying, para tal é necessário que conheçam a realidade de quem é vítima e quais as suas repercussões", sublinha. O Portal Bullying, em www.portalbullying.com.pt, entrou em funcionamento em Fevereiro deste ano e é um espaço de partilha. Uma equipa de técnicos está online para ajudar quem pede apoio.

EDUCARE.PT: Quais as dúvidas mais frequentes sobre bullying que chegam ao vosso portal?
Tânia Paias: As questões que nos chegam são variadas. Muitos adolescentes questionam-nos sobre dificuldades na convivência escolar, de relacionamento com os colegas e sua forma de resolução. Outras perguntas incidem sobre questões do bullying propriamente ditas: o que é, como sabem se estão a ser vítimas, como podem ajudar os colegas, irmãos, primos.

Também muitos pais questionam sobre os sinais de alarme do bullying, a forma como devem agir, quais os meios que podem agilizar para fazer face às situações com as quais os seus filhos/educandos se deparam.

E: O que é urgente desmistificar em relação a esta matéria?
TP: É urgente diferenciar o que se define por bullying, qual a tríade que o classifica, as situações que acontecem dentro do espaço escolar e que são comuns à convivência entre as crianças e adolescentes. É necessário que se perceba que certo tipo de comportamentos são comuns a uma determinada faixa etária, mas que outros não podem ser banalizados.

E: Os sinais de alarme podem, por vezes, passar despercebidos ou confundidos com outras situações. Como lidar com este fenómeno?
TP: Sim, efectivamente, os sinais de alarme são transversais à própria adolescência. É necessário que os pais estabeleçam com os seus filhos uma comunicação frequente, que mobilizem esforços para participarem mais na vida adolescente, que estejam atentos, que fomentem uma liberdade controlada e que criem momentos de reunião familiar, onde se possam discutir as questões com que os próprios filhos se deparam no dia-a-dia.

É importante que os filhos sintam os pais como aliados e como alguém que está disposto a ouvi-los sempre que necessitem e que possam pensar em alternativas de resolução das suas conflitualidades. É necessário que assumam uma participação activa no espaço escolar, que participem nas reuniões, que tenham um diálogo próximo com os professores.

E: Qual a atitude mais adequada para os pais quer dos alunos vítimas de bullying, quer dos alunos agressores?
TP: Os pais quer dos alunos vítimas quer dos alunos agressores, devem ser proactivos na procura de soluções. Em cada um dos casos devem articular com a comunidade educativa e com os recursos ao nível da saúde para limitar o seu comportamento e sofrimento.

E: Bastará trabalhar as questões emocionais? Ou será preciso mais do que isso?
TP: É fundamental trabalhar as questões emocionais, pois em qualquer uma das posições (vítima/agressor) existem padrões emocionais que necessitam de ser redefinidos, quer seja pela dificuldade em se defender, quer seja pela conduta agressiva, de poder. Os aspectos sociais, de pertença grupal, também necessitam ser trabalhados, assim como as questões da cidadania, da responsabilização.

E: Tem defendido programas de prevenção nas escolas. Como facilitar a abordagem do bullying pela comunidade escolar? Quais as competências que deve adquirir?
TP: Os próprios adolescentes devem ser agentes activos na disseminação do bullying, para tal é necessário que conheçam a realidade de quem é vítima e quais as suas repercussões. Jogos dramáticos, dilemas de vida são muito bem aceites pelos adolescentes, permitindo-lhes uma maior consciencialização das dificuldades que cada um vive.
É imprescindível que adquiram competências relacionais, que compreendam os valores individuais e os valores grupais e que para se inserirem num grupo não é necessário aniquilarem os seus valores individuais. As questões da cidadania são essenciais e devem ser trabalhadas nas aulas para o efeito, uma vez que é necessário desconstruir certo tipo de conceitos veiculados pelos adolescentes – nomeadamente do "rufia" como aquele que tem as características mais aprazíveis.

E: Como devem reagir os responsáveis educativos quando há um ou mais casos nas suas escolas?
TP: A comunidade educativa deve accionar todos os meios que estão ao seu dispor para responsabilizar os actos de quem pratica bullying e proteger os que são vítimas. É necessário fomentar a partilha entre escola e família.

E: Há razões para preocupações, já que são reportadas cada vez mais situações de bullying?
TP: Alguns estudos indicam que se tem vindo a verificar uma diminuição dos casos de bullying nas nossas escolas. Talvez o facto das pessoas estarem mais despertas para os sinais de alarme seja uma das causas para que cada vez se reportem mais casos. Há sempre razão para preocupação neste tipo de fenómenos, contudo as escolas têm vindo a pensar e implementar medidas de combate, de prevenção em meio escolar. Os próprios pais também são mais activos na procura de soluções. O necessário é que não se associe o bullying a coisas de miúdos.

E: O vosso portal é mais procurado por alunos ou por pais?
TP: O portal é muito procurado por adolescentes, mas os pais também são um público constante quer no chat, quer via e-mail. Também adultos outrora vítimas são uma constante; reportam-nos a sua situação enquanto alunos e no fórum auxiliam os outros nas dúvidas que colocam. Professores e outros técnicos (psicólogos, enfermeiros) também nos costumam procurar.

E: Quantas visitas e contactos recebem normalmente por semana?
TP: No lançamento do portal tivemos uma média de procura a rondar os 30 contactos diários, depois estabilizou um pouco, mas sempre que algum acontecimento é niticiado pelos meios de comunicação, o portal sofre um novo incremento.

Em situações regulares, temos uma média de 50 contactos semanais, por entre as diferentes modalidades que o portal oferece – chat, e-mail, fórum.

E: Como é constituída a vossa equipa?
TP: A nossa equipa é constituída pelo corpo clínico da Psicronos, uma clínica de psicologia e avaliação psicológica. Cada um dos técnicos, dentro da sua disponibilidade, está online para que quem nos quiser contactar em tempo real possa fazê-lo. Sempre que o chat está offline, todos os contactos serão efectuados via e-mail.

E: Também promovem acções de sensibilização em escolas? Há projectos na agenda?
TP: Sim, as acções de sensibilização, quer em meio escolar quer noutro meio, também fazem parte dos nossos serviços. Durante o mês de Abril, vamos levar a cabo acções em Lisboa (Escola de Comércio), na Batalha, em Mértola, em Portimão. Para Maio estaremos na feira do livro de Lisboa e em Faro.
 
in Educare.pt
 

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