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Eles adoptaram as crianças que ninguém quer

Eles adoptaram as crianças que ninguém quer
do Bebé
Há 550 crianças no país que ninguém quer, segundo o governo. O i foi conhecer casos de adopções improváveis

Miguel não sabe distinguir as cores nem agarrar num lápis. Tem cinco anos e parece que acabou de nascer. Nada lhe foi ensinado. Foi assim que entrou para uma instituição de acolhimento, depois de ser retirado à família biológica por negligência, em 2006. Diagnóstico: perturbação do espectro do autismo. A Segurança Social dizia que não havia pais candidatos ao Miguel. Mal conheceram a história, Mara e Carlos, que queriam uma criança até aos cinco anos, não se importaram que Miguel tivesse mais três. Nem precisaram de ver uma fotografia para saber que não queriam outra criança, só aquela. "Já não olhámos para a idade dele, nem para os relatórios clínicos. Pensámos: ‘Ele está aqui e é nosso’"
 
Yannick, nove anos, negro, maçãs do rosto levantadas, óculos de massa azuis, gargalhada aguda e estridente que fica no ouvido. Estava há dois anos numa instituição à espera de ser adoptado até que João, 33 anos, solteiro, depois de passar com ele os Natais e alguns fins-de-semana decidiu que Yannick iria ser o filho que nunca tinha pensado ter. 
 
Filipe esperava há cinco anos por um pai e uma mãe. Vários problemas de saúde – complicações cardíacas, fenda palatina, alergia ao glúten, hiperactividade, défice de atenção, ligeiro défice cognitivo – condenavam-no à lista imensa dos menos procurados para adopção. Ana sempre desejou adoptar, ouviu um apelo para a adopção do Filipe e no primeiro dia em que ela e o marido o levaram para almoçar, ele conquistou-os. "Foi ele que nos adoptou primeiro. Lembro-me dele, muito pequenino e franzino, eu até dizia que ele não podia ter a idade que realmente tinha, a sair a correr para contar aos amigos: ?Aquele é o meu pai!?" Os primeiros tempos foram uma correria, entre terapias e operações. 
 
Pedro foi abandonado no hospital. Tinha três anos e a sentença de um futuro passado em instituições – como acontece à maioria das crianças seropositivas em Portugal. Até os papéis do processo andavam perdidos. Paulo não lhe viu o rosto, nem sequer sabia o nome. Passou meses "a acordar a pensar naquela criança e a atirar para canto". Mas estava rendido. Oito meses depois, decorou um quarto para o Pedro na casa do Porto e deu entrada dos papéis para adopção. "Perguntavam-me: ?Não tens medo? E se ele morre??, como se todos não pudessem morrer. Tinha sempre de lembrar que ser seropositivo é ter uma doença crónica e que há doenças crónicas bem piores." 
 
Só o Yannick A boca cor-de-rosa de Yannick abre-se num sorriso alegre. "Tira a mão da boca", avisa João, e logo Yannick responde: "Mas o pai também rói!" Está sentado no sofá e finge-se distraído em jogos de computador, mas está suficientemente atento para se intrometer nas respostas do pai. "Há quanto tempo está com o Yannick?" "Há quatro anos", antecipa-se Yannick, que logo põe os joelhos junto ao queixo e balança-se. 
 
João era voluntário da Ajuda de Berço, onde conheceu o Yannick com dois anos. Começou a levá-lo para casa em ocasiões especiais. A certa altura, adoptar o Yannick era inevitável. "Tudo foi acontecendo, não apareceu do nada. Nem sequer houve um período de adaptação porque ele já era aqui da casa", conta. Por isso, quando se virou para Yannick e lhe disse "O Caca [o nome que Yannick chamava a João] vai ser o teu pai", Yannick nem ligou. Só perguntou se podia ir brincar e desatou a correr com os calcanhares a baterem nas pernas. Exactamente nove meses depois de João ter dito à Ajuda de Berço que queria adoptar Yannick, ele entrou definitivamente naquela casa perto de Santa Apolónia, em Lisboa.
 
"O meu caso é diferente dos outros. Não quis adoptar uma criança, quis adoptar o Yannick. É uma história de sucesso. Pode servir de exemplo aos que esperam anos porque querem as crianças que dizem ser perfeitas ", diz João. 
 
"Simpático, bom, trabalhador, gordo, sem jeito para jogar futebol e asneirento", assim o descreve entre risinhos e cócegas o filho Yannick. Nunca se importou de ter um filho negro: "Era-me indiferente ser amarelo, roxo, às bolinhas." Continuam a fazer visitas à Ajuda de Berço e Yannick pede um irmão. E quando perguntou pela primeira vez "como os bebés vão parar às barrigas das mães", João explicou-lhe exactamente como era. Yannick respondeu, de boca torcida: "Ai, que nojo. Assim não quero. Vou buscar os meus filhos à Ajuda de Berço." 
 
Autismo Mara e Carlos já tinham a filha Nicole, mas Mara, que desde miúda sonhava adoptar uma criança e tentava convencer a mãe a fazê-lo, mostrou a Carlos que aquele era o momento perfeito: "Já não tinha necessidade de ter um bebé. Se era para ir buscar uma criança, só fazia sentido ser mais crescida, se não era mais rápido passar por outra gravidez." Mara e Carlos candidataram-se à adopção de um rapaz até aos cinco anos. Tinham três anos de espera pela frente, disseram-lhes. Alteraram para os sete: "Não esticámos mais a corda porque queríamos que a Nicole e ele crescessem juntos." Num encontro sobre adopção falaram-lhes de "um rapaz de oito anos que ninguém queria adoptar". Assim, com estas palavras. Depois do primeiro encontro, Mara e Carlos ponderaram a sós e decidiram: "Não importa se tem mais um ano, é ele que vai ser o nosso filho." Vieram dois meses de visitas, três a quatro vezes por semana, sempre com choros nas despedidas. E o Miguel a reclamar: "Ó mãe, não me podes chamar Miguel. É filho e não Miguel."
 
Mara não sabia bem o que era o autismo. "No início, nem reparei nas pequenas coisas. Como não o acompanhei desde bebé, não sabia o que era normal. Não sabia o que ele sabia ou não fazer." Miguel tem nove anos, mas age como uma criança de cinco. Tem, sobretudo, dificuldades temporais. "Se eu disser que vai acontecer alguma coisa amanhã ele pergunta: ?Isso é quando acordares, não é??", conta a mãe. Esquece-se facilmente do que fez e fala sobre os presentes que lhe deram em conversas sem contexto. "De resto, tudo é igual. Toma medicação, mas vai ao médico uma ou duas vezes por ano, como outra criança."
 
Miguel tem um rosto em V e é tão parecido com o pai adoptivo, Carlos, como Nicole é parecida com a mãe biológica, Mara. "Ninguém diria que não veio da minha barriga", brincam. Miguel usa o lápis para fazer girar a tampa de um espremedor, agarra-se ao pescoço da mãe e enche-a de beijos. Na cara, nos braços, outra vez nas bochechas e mais um apertão. Seis meses depois de o Miguel – que desmonta tudo o que tem parafusos e diz que quer ser "arranjador de máquinas de lavar" – ter entrado lá em casa, Mara e Carlos sentem que tudo mudou para melhor. "Veio completar a nossa casa. Está muito mais irrequieta. E depois fomos pais, realizámos o nosso sonho pela segunda vez." Nicole reclama o colo da mãe com Miguel, que se despede a fazer bolinhas com as migalhas dos bolos. 

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