Entrevista a Alice Vieira

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Parece que foi ontem, mas já passaram trinta anos desde que se sentou a esta mesa onde conversamos para escrever, com os filhos, Catarina e André, o que viria a ser o seu primeiro livro – Rosa, minha irmã Rosa. De então para cá, não parou e já vai em mais de setenta títulos publicados, entre romance juvenil, histórias tradicionais, livros para crianças e mais recentemente poesia de amor. Pelo meio escreveu quatro romances a várias mãos, uma experiência trabalhosas, mas muito divertida. A paixão pelo jornalismo, que a fisgou aos 14 anos, amadureceu, mas não morreu. «Quem é jornalista é jornalista para sempre», afirma. Senhoras e senhores, meninos e meninas, Alice Vieira, a escritora que antes de escrever para nós, escreve para si própria. Deve ser por isso que o faz tão bem.

Não teve uma infância feliz. Porquê?
Foi uma infância diferente. Não fui criada com os meus pais, fui criada com tios-avós, gente mais velha, e não tive contacto com crianças, porque os meus irmãos também foram entregues a outras pessoas. A primeira vez que contactei com gente da minha idade tinha 10 anos, quando entrei para o liceu, o Filipa de Lencastre, onde andei sempre. Eu é que insisti muito que queria ir para o liceu e lembro-me de a minha tia dizer que sim, que fosse, que não tardava nada queria voltar para casa. Pois sim. Até inventava aulas que não tinha para estar lá mais horas.

Portanto, a adolescência foi melhor do que a infância?
Complicada. Em casa a vida não era muito fácil e o liceu era o escape. Não tenho saudades nenhumas, nem da infância nem da adolescência. Acho que só fui feliz depois dos 18 anos.

Como é que essa experiência entrou nos seus livros?
Há uma coisa de que me lembro como se fosse hoje: de ser muito miúda e dizer que nunca havia de esquecer aquele tempo e que havia de contar como tinha sido. Portanto, se a vingança se serve fria, neste caso serviu-se gelada. Passados estes anos todos muitas das histórias que conto e dos romances que escrevo têm que ver com esse tempo. Tenho excelente memória e nunca me esqueci de como pensava, de como falava, do que sentia em relação ao que me faziam, e acho que isso foi bom.

Em muitos dos seus livros, sobretudo nos primeiros, há sempre uma avó, verdadeira ou adoptiva, que torna as infâncias, mesmo as infelizes, mais suportáveis. É sua, essa avó?
É talvez a que gostaria de ter tido. A minha avó materna já tinha morrido quando eu nasci e com a minha avó paterna tive muito pouco contacto. As avós oficiais, legais, não me tocaram. O professor João dos Santos dizia sempre que uma criança não sobrevive sem ter uma aldeia e sem ter uma avó e por isso, se não as tem, tem de as inventar. Eu fui inventando avós em várias pessoas, muitas não me eram nada, outras eram primas afastadas, mas foram muito minhas avós, eram quem me ouvia, com quem eu falava… A Maria Lúcia Namorado, por exemplo, que dirigia a revista Os Nossos Filhos, foi uma pessoa muito importante na minha vida, era minha prima afastada e terá sido quem mais me influenciou em miúda. Essas avós que escrevo não são as minhas, mas quem as substituiu.

A fuga da infância leva-a para o jornalismo. Como se começa no jornalismo aos 14 anos?
Foi exactamente isso, uma fuga. E como é que se podia fugir naquela altura? Havia um jornal, que era o Diário de Lisboa, que tinha um suplemento, o Juvenil, e eu comecei a escrever textos e a mandar para lá. Era muito engraçado naquela idade ver o meu nome assim impresso. Era uma colaboradora muito assídua, os anos foram passando e há sempre a ideia de ver como é que aquilo se faz e eu fui ver. Agora já não cheira a nada, mas naquela altura quando se entrava numa tipografia sentia-se o cheiro do chumbo e aquilo era uma droga que se metia no sangue e já não saía.

Foi lá que se fez jornalista.
Foi, acho que o que aprendi de jornalismo foi na tipografia do Diário de Lisboa. Aquela foi a minha casa, quando o jornal acabou foi um grande desgosto. A primeira vez que escrevi para o jornal a sério era miúda e percebi que a minha vida ia ser aquela. Depois, quando fui viver com o Mário [Castrim], que era o director do jornal, achei que marido e mulher no mesmo sítio dá disparate, e saí para o Diário Popular, onde estive oito anos, até ao 25 de Abril, que foi quando passei para o Diário de Notícias. Ao mesmo tempo fiz o curso [Filologia Germânica]. As tias todas queriam que eu fosse professora, a única profissão que viam que uma menina de boas famílias podia ter, para além de casar com um marido rico, mas isso já tinham percebido que não ia acontecer, por isso, ser professora era a outra opção, mas, coitadas, também se desiludiram. Até hoje, as tias que ainda tenho, já muito velhas, quando lhes perguntam pelas sobrinhas, dizem: fulana é médica, sicrana é advogada e a Alice, essa, lá anda na vida que ela escolheu [ri]. O jornalismo não era uma coisa muito honesta…

Mas a paixão pelo jornalismo acabou em divórcio, em 1990. Foi a literatura que se meteu entre vocês os dois?
Não, não foi divórcio nenhum. Digamos que fomos viver para casas separadas. Ainda hoje trabalho para o Jornal de Notícias, para a Activa e para a Audácia. Quando, em 1990, deixei o jornal nem foi por zanga, foi por motivos de saúde. Quando adoecemos com uma certa gravidade, percebemos que não somos eternos e queremos fazer aquilo de que gostamos mais. Era-me impossível continuar com o jornal todos os dias, com as escolas, com os livros, por isso parei. Ainda por cima, o médico tinha-me dito que, na melhor das hipóteses, teria dois anitos de vida… Isto foi há vinte, mas na altura foi complicado e decidi dedicar-me aos livros a tempo inteiro. Não queria ter horários, queria o pouco tempo de vida que tinha todo para mim. Deixei a redacção do Diário de Notícias e passei a ser colaboradora, situação em que me mantive por muitos anos, até passar para o Jornal de Notícias. Ser jornalista está-me na massa do sangue e passaria muito mal se não tivesse onde escrever. Se ficasse só com os livros, esse outro lado far-me-ia muita falta.

Teve medo quando o médico lhe disse que só tinha dois anos de vida?
Não, reagi muito bem. Uma coisa boa foi voltar logo ao trabalho – ainda fiquei um ano no jornal depois de ser operada [a um cancro na mama] e enquanto estive a fazer os tratamentos. Foi o meu marido que insistiu, e bem, porque foi uma terapia óptima. A Manuela Maria – eu, a Manuela Maria e a Simone somos o trio das cancerosas de serviço, como costumo dizer, na brincadeira – diz uma coisa que é muito verdade e que também me aconteceu: que nunca pensou que ia morrer. Eu também não. Mesmo depois de o médico me ter dado só dois anos de vida. E penso que essa maneira positiva de encarar as coisas é muito importante.

Tem medo de alguma coisa?
Tenho medo de pássaros, muito medo. Até de um pintainho fujo a sete pés. É mesmo uma fobia. Nunca tive tanto medo no cinema como a ver Os Pássaros, do Hitchcock, devo ter passado o filme todo com a cabeça enfiada no ombro do meu marido. E tenho medo de ficar dependente e de perder as capacidades, porque aí perde-se tudo. Se me esqueço de uma palavra entro em pânico, por isso, leio e escrevo muito, para dar trabalho à cabeça.

Tem alguma relação com Deus?
Tenho uma T-shirt que uso às vezes que diz: «God is too big to fit in one religion» [Deus é grande de mais para caber numa só religião]. Não sei em que acredito, mas penso que há qualquer coisa. Tenho uma certa religiosidade. Trabalho há muitos anos com os missionários combonianos, que têm a revista Audácia, e isso é muito importante para mim. O meu marido também trabalhou com eles e era muito engraçado porque o Mário, embora fosse um comunista ortodoxo, tinha uma raiz católica que manteve até ao fim da vida.

Falou da filiação partidária do seu marido. A Alice Vieira também apoia a CDU. Como é que pauta a sua intervenção política?
Não sou tão militante como era o meu marido, pago as quotas, dou o meu nome para determinadas coisas, nas eleições se me põem nos últimos lugares da lista, pois com certeza. Às vezes, chateio-me com eles, mas quando vou votar, começo a pensar e a minha mão não vai para mais lado nenhum. Tenho sempre na cabeça uma frase que o Mário Dionísio me disse e que me tocou: «Os erros dos nossos amigos nunca nos hão-de pôr do lado dos nossos inimigos.» Por isso, mesmo que os meus amigos cometam erros, e cometem, e eu esteja em desacordo, chega uma altura em que penso no essencial, largo o acessório e fico com eles, porque no essencial defendo o que o PCP defende.

Já contou milhares de vezes como começou a escrever o Rosa, Minha Irmã Rosa e como este resultou de um ultimatum dos seus filhos que aos 9 e 10 anos já não tinham o que ler.
Foi nesta mesa! Por isso é que chia tanto. E por isso é que os meus filhos não me deixam deitar fora esta porcaria e comprar outra. Estávamos de férias e ter miúdos de férias em casa é complicado, de maneira que, para ver se os sossegava um bocadinho, já que estavam sempre a pedir que escrevesse uma história para eles, disse: «Vamos tentar escrever uma história nestes vinte dias de férias.» Sentávamo-nos aqui, eles traziam os cadernos da escola e eu ia escrevendo, depois líamos, emendávamos, no outro dia mais um bocadinho e no fim das férias a história estava pronta. Eles levaram-na para a escola e eu arrumei-a numa gaveta e nunca mais pensei naquilo. Nem sequer fui eu que a mandei para o concurso. Quando veio no jornal a notícia de que havia um prémio instituído pela Caminho para o melhor texto do Ano Internacional da Criança (era 1979), foi o Mário que pegou naquilo e mandou. Por isso, quando ganhei o prémio foi um grande espanto para mim. E significou uma volta de 180 graus na minha vida. O livro vendeu-se muito, o editor pediu-me logo para escrever outro e nunca mais parei…

O primeiro livro foi colectivo…
Pois foi, os meus filhos acham que devia ter posto também o nome deles como autores. E devia, devia, porque aquilo foi um trio muito conseguido.

De então para cá como é que os seus métodos de trabalho evoluíram?
O meu método de trabalho [suspira]… Não tenho método de trabalho. Nunca sei o que vou fazer nem quando vou fazer, mas trabalho muito bem com prazos – isso foi uma coisa que o jornalismo me deu – e quando tenho muita coisa para fazer ao mesmo tempo. Sou muito organizada na desorganização. Mas só quando estou a escrever é que descubro que história vai acontecer. Antes dizia que tinha que ver com o barulho das teclas, agora não já não posso dizer isso, porque o computador é um bicho mudo… e o barulho faz-me tanta falta. Havia no Diário de Notícias um jornalista, o Humberto Vasconcelos, que, quando entraram os computadores, sofreu muito, como eu, e então fez uma gravação com o barulho das teclas, para o acompanhar quando escrevia no computador [ri]. Comigo continua a ser um bocadinho assim: só quando estou no teclado é que aquilo vem, antes não acontece nada. Mas agora, com cinco «patrões» [escreve para cinco editoras do grupo Leya] e sempre a correr de um lado para o outro para ir às escolas, ando a trabalhar que é uma maluqueira, durmo duas horas por noite.

Nunca lhe ocorre dizer que não?
Pois, tenho muita dificuldade. As pessoas são muito engraçadas, amam-me de paixão, mas depois exploram-me ao máximo [ri].

Como é que alguém para quem era tão importante dormir e que só conseguia escrever de manhãzinha, consegue passar do dia para a noite e só dorme duas horas?
Cada vez me adapto melhor às circunstâncias. De há três ou quatro anos para cá, a minha vida é muito diferente. Passo os dias nas escolas, chego a casa à noite, começo a escrever e quando dou por mim são três ou quatro da manhã. E se não tenho escolas no dia a seguir, às sete e meia estou no ginásio a fazer a minha passadeirinha (onde às vezes adormeço, é verdade). É muito trabalho! E eu aceito tudo, meto-me em tudo…

É autora do grupo Leya. Este fenómeno de concentração do mercado editorial causou alguma polémica. Como o encarou?
A Caminho, que era a minha casa há quase trinta anos, na altura convocou-me para uma reunião para dizer o que ia acontecer, e eu tive sérias dúvidas, mas eles puseram as coisas neste pé: ou entramos no grupo ou fechamos a porta. Diante desta opção, não havia muito a fazer. Hoje, devo dizer que trabalho muito bem com o grupo.

E não é estranho para si ser protagonista de uma campanha como esta – «Alice Vieira – 30 anos de livros» –, com lápis, crachás, autocolantes, marcadores, cartazes e por aí fora?
Completamente. O meu neto é que outro dia dizia: «Ó ‘vó está ali uma que pareces tu, mas não és porque tens o cabelo azul.» Mas gosto muito que os patrões se lembrem que faço trinta anos de trabalho. O que me espanta é que tenham passado tantos anos, porque para mim foi ontem. A campanha de mandar um livro para Timor por cada postal – daqueles que vêm dentro dos meus livros – que os meus leitores me enviarem foi uma ideia minha, porque queria que isto tivesse um significado maior. Tenho uma relação forte com Timor e nunca vi ninguém naquele país pedir nada que não fosse lápis ou livros. Isso toca muito uma pessoa.

Visita cerca de oitenta escolas por ano, porque é que para si é tão importante ir às escolas?
Pelos miúdos. Uma coisa é eles lerem os livros, outra é falarem com quem os escreveu. Além disso, crio uma relação com eles que sai muito das escolas e dos livros, eles escrevem-me, eu respondo, até hoje escrevo-me com leitores meus. Alguns há trinta anos, já casados e com filhos. Os miúdos têm muita necessidade, há trinta anos como hoje, que os oiçam, às vezes só querem ser ouvidos. Ainda outro dia, uma miúda, assim da sua idade [trintas], passou por mim na Feira do Livro e deu-me uma carta. Não tinha referência alguma, só o nome dela, era cabo-verdiana, e dizia qualquer coisa como isto: quando estiver em baixo, leia esta carta e lembre-se de quantas raparigas leram os seus livros; eu li-os quando a minha vida não era nada fácil… Sentir que estamos a contribuir para que miúdos e jovens sejam um bocadinho mais felizes dá-nos vontade de trabalhar.

A sua amiga Rosa Lobato de Faria, que entrevistei há uns tempos, diz que fala com as personagens e elas é que lhe dizem o que ela tem de escrever, não inventa nada, Deus a livre…
É exactamente isso. As personagens ditam o que o livro vai ser. Quando começo a escrever, como lhe disse, nunca sei o que vou fazer, sou um bocado espectadora, é como se estivesse no cinema, a olhar para o ecrã e a partir dali a história surgisse. Também falo muito com as personagens e ainda bem que estou aqui sozinha porque faço umas figuras desgraçadas: paro, falo, insulto, berro, sobretudo insulto muito o computador quando as coisas correm mal. Dantes a culpa era do papel, rasgava e deitava fora, agora não posso deitar fora o ecrã.

Hoje é mais fácil destruir um livro, se não gostar do resultado?
É muito mais fácil destruir, mas também é muito mais fácil escrever. Tenho a certeza de que se não tivesse computador e estivesse ainda na velha máquina de escrever não era capaz de desenvolver este trabalho todo. Embora – por muito que custe aos ecologistas e às florestas – ainda precise muito de papel para fazer as últimas emendas. Só consigo ver o livro quando está em papel. O José Paula e Carmo, que era um grande crítico, dizia: «Tanta árvore que se deita abaixo para se fazer papel de parvo.» Não sendo esse o caso, lembro-me sempre disso quando imprimo um texto.

Nestes trinta anos, já publicou mais de setenta livros. É obra! Onde vai buscar a matéria para tanta produtividade?
Pois, parece que sim [suspira]. Além da minha infância e da dos meus filhos, vou sempre ou quase sempre buscá-la ao meu dia-a-dia. Saio e quando chego a casa já trago um romance para escrever. Matéria-prima nunca falta desde que se esteja com atenção. O António Torrado costuma dizer que para escrever uma história basta olharmos pela janela.

Consegue dizer o que é que gosta mais de escrever?
O mais difícil é o que escrevo para crianças. Tenho o dobro do trabalho e levo o dobro do tempo a escrever pequenas histórias para os mais novos porque tenho de estar sempre a pensar que idades têm, se percebem determinada palavra ou não. Por isso, prefiro escrever romance. Sou muito egoísta quando estou a escrever; sou eu, a máquina e mais ninguém, e escrevo para mim. Sou muito, muito exigente, mas é comigo, já deitei fora romances completos quando os ia entregar.

As crianças e jovens são os que mais lêem neste país. Mas são bons leitores?
São. Muito por causa da escola, resta saber é se quando saem da escola continuam a ser bons leitores. Penso que temos de os cativar para o gosto da leitura muito antes disso, desde bebés, habituá-los a mexer nos livros, contar-lhes as histórias, só assim serão adultos que lêem.

A Alice Vieira está no Facebook. Resistiu durante tanto tempo às novas tecnologias e agora…
Eu? Eu sou uma viciada no Facebook, outro dia até propus umas clínicas de desintoxicação do Facebook [ri]. Aquilo é terrível, às vezes dou por mim há uma hora dentro daquela porcaria. Mas tem coisas muito boas. Outro dia de repente estava lá toda a minha antiga redacção do Diário de Notícias, já não nos víamos há anos, fomos todos para o Snob e saímos de lá às três da manhã. Este contacto entre as pessoas é que acho muito engraçado.

Recentemente publicou dois livros de poesia. Mas só depois de sujeitar o primeiro – Dois Corpos Tombando na Água – a concurso sob o pseudónimo Filipa Sousa e Silva. Porquê?
Gosto muito de poesia e até será o que leio mais, mas sou muito crítica. Tinha ideia de que não estaria mal, mas não valia de nada dar aquilo a alguém porque iam logo dizer que estava muito bom. E então soube que havia o prémio Maria Amália Vaz de Carvalho e, como os membros do júri eram gente que me dava muita segurança, mandei sem ninguém saber. Os únicos que souberam, como aliás sabem da minha vida toda, foram os senhores dos correios. E pronto, ganhei. Mas ainda outro dia estava a dizer a uma amiga que acho que devia assinar a poesia com outro nome, não pseudónimo, mas heterónimo, porque sinto que quem escreve aquilo é outra pessoa. A sério, não sou eu, a maneira de escrever, o quando escrevo. Eu, que nunca fui capaz de escrever nada à mão, nem uma carta, só consigo escrever poesia à mão.

Dizia numa entrevista, em 1984, que a poesia escrita por si tinha morrido, que a tinha escrito aos 20 anos, porque estava apaixonada, e que à medida que se envelhece se aprende a conter as emoções e por isso sentia-se melhor no rigor da prosa. O que aconteceu, então?
Pois, não sei. De facto, sou muito de prosa e portanto é qualquer coisa estranha que de repente aparece.

E a Filipa Sousa e Silva vem de onde?
[Hesita] Essa Filipa Sousa e Silva digamos que é o correspondente feminino de um namorado que tive [ri].

O registo poético é muito íntimo, desnuda o autor. Que dúvidas teve?
Aquilo é poesia de amor e a poesia de amor está sempre numa fronteira muito frágil: ou é boa ou é uma lamechice pegada. Havia um autor que dizia que os maiores crimes passionais eram os sonetos de amor. Eu tenho sempre medo de estar a cometer um crime passional, porque essa fronteira é tão ténue que às vezes basta uma palavra para cair para o lado de lá. Por isso, corrijo muito, vem de rajada, mas depois há o ofício, é preciso levar aquilo à oficina da escrita. Apesar de tudo, sou muito lúcida e muito de prosa e isso defende-me.

Aos 66 anos, ainda acha que o seu calcanhar de Aquiles é ser muito impulsiva e acreditar de mais nas pessoas?
Acreditar nas pessoas é bom, apesar de tudo. Nunca me arrependo disso, vale mais desiludirem-me do que estar sempre a desconfiar. Mas impulsiva sou muito e tenho pouca paciência para certas coisas. Tenho muito pouca paciência para gente burra, por exemplo.

Se perguntarem por si, o que é que quer que eu diga?
Ai, queria tanto que dissesse: deixem-na descansar, deixem-na dormir. Digam que voei, digam que emigrei, digam que estou fechada para balanço. Qualquer coisa, desde que me deixem descansar um bocadinho.

in DN por Catarina Pires

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