Há mais mães obcecadas com o peso dos filhos

A excessiva preocupação com o aspecto dos filhos leva muitas mães a imporem  regras alimentares rígidas e erradas. Médicos alertam para perigos dessas atitudes

Três vezes levou a filha de 14 anos à consulta, das três vezes com a mesma preocupação: "Achava que estava acima do peso, quando na verdade a adolescente estava perfeitamente bem e tinha o peso normal", lembra a nutricionista Alexandra Bento.

Eram os cuidados da mãe que se repercutiam na filha. "Era uma pessoa excessivamente elegante, com boa imagem, com muito cuidado com a saúde e o aspecto físico e estava demasiadamente preocupada com a imagem corporal da filha", explica a médica, referindo que, embora não obrigasse a filha a suprimir refeições, era controladora com tudo o que pudesse engordar. "A adolescente também absorvia muito do que a mãe dizia."

A obsessão das mães pelo aspecto físico e magreza das filhas não é apenas argumento de série de televisão, como acontecia na novela brasileira da Globo Páginas da Vida. É bem real, dizem os médicos, está a aumentar e pode trazer consequências graves para as crianças e adolescentes. "Tivemos uma criança de dez anos referenciada pela Equipa de Apoio Técnico ao Tribunal de Família e Menores de Lisboa, em que um dos factores dizia respeito ao facto de os pais serem completamente restritivos com alimentos doces", conta também a juíza Lídia Renata, salientando, no entanto, que estes casos não costumam chegar à barra do tribunal.

"Existem comportamentos obsessivos de alguns pais perante a alimentação e o peso dos filhos", confirma Armando Tavares, pedopsiquiatra do Centro Pediátrico de Telheiras.

Privam-nas de alimentos como pão, massas e todo o tipo de doces. "Tenho algumas crianças com crescimento adequado e índice de massa corporal normal, mas cujos pais, especialmente as mães, as acham gordas", diz.

O nutricionista Luís Maioral também assiste alguns casos no seu consultório: "Tento fazer ver às mães que estão erradas e que não faz sentido pressionar as crianças nessas idades. Elas devem poder comer um bocadinho de tudo. Os extras, como chocolates e gelados devem fazer parte da alimentação, desde que moderadamente." "O problema", diz, "não é da filha, é da mãe", garante, salientando que esta questão atinge sobretudo adolescentes e mais as raparigas.

"Estas restrições e estas atitudes servem para justificar o comportamento alimentar de alguns adultos. Não vou comer, não posso comer e a minha filha também não", indica, por sua vez, o pediatra Mário Cordeiro. São cuidados exagerados que, no entender do médico, podem trazer repercussões graves no futuro. "Os pais devem permitir comer chocolates e alguns fritos numa festa, por exemplo. São situações casuais. Se não o fizeram, mais tarde, quando o adolescente ganhar a sua autonomia, pode começar a comer desmesuradamente, por vingança."

Manuel Coutinho, da SOS Criança, lembra que o simples privar de alimento antes das refeições pode ser prejudicial. "Tenho muitos pais que, para a criança não engordar, não lhes dão nada nas horas antes do jantar, por exemplo. Mas depois admiram-se que ela esteja irritada. Uma banana ou uma sandes pode minimizar situações de alteração de humor", defende o psicólogo clínico, para quem a restrição de qualquer alimento só pode ser feito mediante aconselhamento médico.

Mas as consequências podem ser mais graves e implicar a própria saúde do filho. "Há pais que incentivam algumas dietas restritivas que podem comprometer a estatura final da criança e provocar erros nutricionais, como deficiência em ferro, zinco, selénio, ácidos gordos não saturados", alerta ainda Armando Tavares.

"A criança tende a aprender com os pais e a seguir certas práticas. Psicologicamente pode ficar abalada e partir para um caminho de comportamento excessivo de controlo de peso ou mesmo anorexia e bulimia", concorda Luís Maioral. "Dizer à criança que está gorda, quando não o está pode afectar a sua autoconfiança", conclui a endocrinologista do Hospital de Santa Maria, Isabel do Carmo.

 

in dn

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