Mãe de primeira viagem

Mãe, mãe!", ouço eu, emergindo de um sono profundo povoado de sonhos insólitos (faço parte da segurança de José Sócrates, vejo um homem vestido de negro que desce de um arranha-céus preso por uma corda para matar o primeiro-ministro e eu carrego num botão, abre-se um toldo, o homem desequilibra-se e cai, eu salvo Sócrates, que não me agradece), movida pela certeza de que algo se passa e tenho de acordar imediatamente. Só então me lembro, pergunto se é o bebé que vem aí. São as primeiras contracções, ainda espaçadas, as primeiras dores, um alvoroço.

Saímos para aquela madrugada fria, um céu de claros-escuros, cruzando a cidade à hora mais agónica da noite, passam mulheres e homens a caminho do trabalho, o passo ainda incerto, olhos pregados no chão, enquanto nós as duas respiramos juntas, inspirar como quem cheira uma flor, expirar como quem sopra uma vela, vá lá, vá lá, está tudo bem, estamos aqui todos, os homens também, vai nascer por fim.

Damos entrada na urgência da MAC, sentamo-nos à espera, escutamos os murmúrios uns dos outros, das raparigas de barriga proeminente, dos companheiros de jeans à moda (rotos), brinco na orelha e boné sobre os olhos, das mães das jovens mães que desfiam conselhos e recomendações. Vamo-nos conhecendo à medida que o tempo passa, o semi-silêncio pontuado pela voz que chama, uma a uma, as grávidas à sala de triagem.

O dia torna-se definitivo, um dia novo num ano velho prestes a acabar e eu digo que é melhor não comer, ponho a mão sobre a sua barriga que se estica, afogo-lhe a dor nos meus braços, passo a mão sobre a sua testa, enquanto o futuro pai vai em busca de um croissant torrado com fiambre.

Chamam-na para a triagem e nós ficamos, naquela modorra que toda a espera provoca, calcando a ansiedade das horas que estão para vir.

Para enganar o tempo conto àquele pai estreante o que na minha memória se sedimentou depois da voragem das dores e das emoções, aquela perplexidade desmesurada de dar à luz um ser único e irrepetível e ele responde-me com as narrativas da sua própria mãe, também ela, tal como eu, mãe de três filhos. Tudo tão novo e tão antigo, tão humano e tão divino.

No grande ecrã passam imagens e legendas para distraírem a nossa vigília. Aprendo que a sopa de tubarão mata mais pessoas que o próprio tubarão e que em média cada pessoa, ao longo da vida, engole dez aranhas durante o sono. Vou-me apercebendo dos circuitos e avalio a cadência com que as utentes são chamadas, o tempo de espera e o tempo de triagem, quantas ficam internadas e quantas são mandadas embora.

Saio para fumar um cigarro, junto-me na rua a outros companheiros, futuros avós, futuros pais, falamos entre nós unidos por uma cumplicidade espontânea, desejando mutuamente "uma hora curtinha".

Sinto-me bem nesta casa de tantas mães-coragem, de tantas memórias acumuladas, segura de que estão as duas bem entregues e a expectativa vai dando lugar a um júbilo singular à medida que o tempo passa e se cumprem os desígnios do nascimento até que a noite cai e ela nasce.

Agora é o tempo da maternidade e da paternidade, eu já não faço falta, nem o resto da ansiosa família. Deixam-nos vê-la entre portas e eu tento fixar com detalhe cada traço, cada expressão deste pequeno ser que há nove meses vive entre nós, mas que só agora podemos ver e tocar.

A novíssima mãe passa a caminho da enfermaria, rolam duas lágrimas de alegria, é linda, é linda, dizemos uns aos outros e obedecendo às regras debandamos para casa. E eles lá ficam, os três, mãe e pai de primeira viagem e Maria Camila, olhar aberto para a vida que agora mesmo começa.

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