Muito pequeninos mas sobreviventes

Portugal contabilizou 1025 bebés prematuros abaixo dos 1500 gramas e das 32 semanas de gestação, no ano de 2008. No limiar de viabilidade, isto é, entre as 24 e as 25 semanas, nasceram 170 crianças, 69 das quais morreram.
Nos últimos 30 anos, a realidade da prematuridade tem subido no nosso país. Se há 30 anos, 5% dos pequeninos que nasciam estavam abaixo das 32 semanas (mas já depois do limiar da viabilidade), hoje são já 7%. A causa mais frequente, dizem os especialistas, são as infecções assintomáticas. “É, de facto, a causa mais apurada. São as infecções bacterianas ou víricas. Uma placenta inflamatória ou uma infecção urinária, por exemplo, podem espoletar as contracções de parto”, explicou Hercília Guimarães, directora do Departamento de Neonatologia do Hospital de S. João, no Porto. Por outro lado, pormenorizou a especialista, a prematuridade “é multifactorial”. “Se a mãe sofrer de uma doença crónica como uma cardiopatia, a probabilidade de vir a ter um bebé prematuro é maior”, disse.

Mas uma coisa é a causa mais verificada, outra coisa são os factores de risco, sobre os quais nem sempre se pode provar matematicamente que estiveram na origem de um parto prematuro. “Sabemos que o stress e que uma vida muito apressada e cheia de preocupações pode ser um risco, mas não podemos provar matematicamente que foi o stress que esteve na origem de um parto prematuro. Não se pode estabelecer essa relação assim. Mas claro que é um risco. O mesmo se pode dizer em relação à poluição”, defendeu.

Dentro dos factores de risco encontram-se, ainda, alguns grupos, tais como “meninas grávidas com menos de 18 anos e mulheres grávidas com mais de 35 anos”, acrescentou Paula Fernandes, directora do Serviço de Cuidados Intensivos e Neonatais e Pediátricos do Hospital de Santo António, no Porto. “No caso das mais novas é um risco porque ainda há uma imaturidade biológica e, muitas vezes, acabam por ser gravidezes mal seguidas, no caso das mais velhas porque o organismo envelheceu e aumenta a probabilidade das trissomias”, explicou. Não quer isto dizer que prematuridade se verifique mais nestes grupos, apenas que é um risco acrescido.

Mas, na verdade, não há muito que a futura mãe possa controlar ou fazer, além de ter os cuidados que sempre se aconselham. “Não depende muito da mãe. Esta tem que ter uma vida com uma nutrição adequada, sem hábitos nocivos como o tabaco ou o álcool e alguma calma”, avançou Hercília Guimarães. Por outro lado, “é conveniente que a gravidez seja desejada e vigiada clinicamente”, avisou.

Um risco mas também uma causa da prematuridade é a Procriação Medicamente Assistida. “Durante um tempo implantavam-se vários embriões, para que a probabilidade de uma gravidez vingar fosse maior. O que sucedia era que, mesmo vingando durante a gravidez, os bebés nasciam prematuros e morriam depois porque eram mesmo muito prematuros”, relatou aquela especialista.

Dizem os neonatologistas que “quanto mais embriões, maior é o risco da prematuridade”. “De facto, esta é uma questão a ser repensada, muito bem reflectida. Talvez cheguemos à conclusão que não devem implantar-se mais do que dois embriões”, defendeu Hercília Guimarães.

É, aliás, possível que na origem do aumento da prematuridade nas últimas décadas esteja a Procriação Medicamente Assistida. “Há 30 anos também havia stresse e as mesma infecções. E não havia a tecnologia que hoje temos que tem salvado a maioria destes pequeninos”, argumentou.

De facto, indicam as estatísticas, o número de mortes por prematuridade tem diminuído drasticamente e dos bebés que nascem com 27 semanas (ou seja, quase no limiar da viabilidade), a maior parte vive sem sequelas. Até aos anos 80 a realidade era bem diferente. “Os que precisavam de ventiladores (máquina que fornece a pressão e o oxigénio para ser possível a respiração) morriam, porque não havia ventiladores”, conta Hercília Guimarães.

Foi precisamente no decorrer da década de 80 que um grupo de especialistas se uniu e pesquisou sobre as condições existentes, elaborando relatórios que deram origem à dotação de todos os equipamentos necessários nos hospitais portugueses. “Foi um avanço enorme, estamos a anos-luz do que se viveu até então. Desde a década de 80 que a mortalidade neonatal desceu 80%”, terminou.

As probabilidades de se salvarem estes pequeninos aumentaram bastante, mas para os pais que têm o seu bebé dentro de uma incubadora, ligado a máquinas e com tubos por tudo quanto é lado, a realidade fica assustadora. “Nunca ninguém está preparado para ter um bebé prematuro”, confirmou a médica Paula Fernandes.

Os pais, na sua maioria, “ficam perdidos”. “Ao médico cabe explicar o que é um bebé prematuro, do que precisa; e explicar, ainda, que o seu estado pode mudar de um momento para o outro”, disse aquela especialista, acrescentando que “se por um lado, não se lhes pode dizer peremptoriamente que vai correr tudo bem, por outro lado, não se lhes pode retirar a esperança. É algo que exige muito equilíbrio e sensibilidade”.

Regra geral, face à notícia, o casal fica mais unido. “Ficam mais unidos e percebo que, hoje em dia, tanto as mães como os pais são muito presentes. Há muitos anos, as mães vinham, os pais nem por isso. Hoje, isso mudou”, congratulou-se.

E a presença de ambos os pais perto da incubadora “é fundamental”, concluiu.

in JN

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