Não se deve mentir às crianças

As crianças devem aprender a lidar com a morte, pois esta faz parte da vida, diz o psicólogo Nelson Carvalho, referindo-se à situação que se vive actualmente na Madeira. Neste contexto, defende que os pais devem ir introduzindo o tema na vida da criança, mas tendo sempre em atenção o seu estado cognitivo e emocional. Mentir é que não. 
 
 
O psicólogo Nelson Carvalho aconselha os pais a informarem os filhos sobre a situação de tragédia que a Madeira está a viver, sem mentirem, mas sempre tendo em atenção o seu carácter, emoções e sentimentos, os quais devem ser respeitados.

Conforme explica, as crianças apercebem-se das situações, embora a sua noção da realidade vá diferindo consoante a idade.

A título de exemplo, Nelson Carvalho diz que só aos 8 ou 9 anos é que uma criança tem a noção do que é a morte. No entanto, na sua opinião, «as crianças devem ser preparadas para a vida e a morte é uma parte da vida». Daí considerar ser importante ir introduzindo o tema, suavemente, nomeadamente através de histórias. Há livros apropriados para cada idade, os quais podem ajudar os pais nessa tarefa.

Nesse contexto, Nelson Carvalho diz que as famílias que perderam entes queridos e tenham filhos com idades inferiores às que foram referidas, devem falar do falecimento de alguém de uma forma suave.

Aos cinco anos, por exemplo, é melhor dizer à criança que a pessoa que morreu está no céu, que pode até ser uma determinada estrela, mas que continuará a vê-la, a preocupar-se com ela e a ajudá-la quando for preciso. «O importante é vincar que a pessoa que morreu já não está aqui», frisa o psicólogo. Isto porque, se os pais optarem por dizer que o falecido (que pode ser a mãe ou o pai) foi “fazer uma viagem”, a criança fica com a ideia de que o falecido, um dia, há-de voltar. «Quando descobrem a verdade, essas crianças ficam revoltadas», explica.

Embora defendendo que os pais não devem mentir sobre a morte, Nelson Carvalho considera que o exemplo do céu e da estrela não é, propriamente, uma mentira. Enquadra-se no padrão cristão, o que ajuda a confortar a criança. Conforme a criança for crescendo, vai-se adequando a informação à sua maneira de ser e sentir.

Seja qual for a explicação, o psicólogo alerta para a possibilidade de a criança chorar pela situação de perda que está a viver. «Podem ficar tristes, mais susceptíveis ou revoltadas, porque as crianças também têm emoções e sentimentos, que devem ser respeitados», acrescenta.

Salientando que o nível emocional e cognitivo das crianças é diferente do dos adultos, Nelson Carvalho diz ser necessário «adequar a linguagem ao nível delas».

Se a criança chorar ou tiver pesadelos, o que é normal que aconteça, não é necessário ir a correr para o psicólogo. «O mais importante é conversar com ela, tentar entendê-la e dar tempo ao tempo, pois as crianças precisam tanto de fazer o luto como os adultos», esclarece.

Aos 8 ou 9 anos, o anúncio da morte pode ser feito através de uma história com cariz real, que aborde o tema da morte, explicando, de forma suave, com linguagem afectuosa, o que aconteceu.

Perante os que estão em estado de choque
Apoio da família e amigos é vital

A tempestade que se abateu sobre a Madeira pode ter provocado situações de choque a várias pessoas. O mais importante, neste momento, é que tenham o apoio da família e amigos. Em caso de necessidade, nomeadamente para quem não os tem ou vive sozinho, pode sempre recorrer às entidades que lhes possam dar apoio técnico, diz o psicólogo Nelson Carvalho.

De acordo com o psicólogo, a maior parte das pessoas consegue reorganizar a sua vida depois de uma dificuldade ou, neste caso, de uma calamidade, com o apoio dos familiares.

«Mas este temporal foi, de facto, uma calamidade, pelo que é natural que alguns tenham ficado em estado de choque», diz o psicólogo.

Essas situações de choque são ainda mais prováveis naqueles que viveram a tragédia de perto, viram desaparecer os seus bens ou, inclusive, tiveram mortes de entes queridos. O desaparecimento de alguém é outra das situações que cria grandes níveis de ansiedade. «É uma ansiedade horrível, com custos emocionais muitos grandes», diz.

Nesta fase, conforme diz, é importante que essas pessoas recebam apoio psicológico, que lhes permita expressar a tristeza, raiva, revolta ou ódio que possam estar a sentir. Nelson Carvalho acrescenta que esses sentimentos são naturais nestas situações, mas que, passado um tempo vem a aceitação. Esta, no entanto, pode levar dias, meses ou até anos, consoante o carácter da pessoa.

Nelson Carvalho defende
Luto tem que ser feito

Nelson Carvalho garante que «o luto tem que ser feito». Isto é, aqueles que passam pela situação de perda de um ente querido têm de enfrentar o facto até chegarem à fase de aceitação.

Conforme explica, o luto tem quatro fases e terminá-lo depende da maneira de ser de cada um.

O que é certo é que a primeira fase é a da negação. «As pessoas têm tendência a não querer aceitar que aquele facto lhes está a acontecer e perguntam-se: Por que aconteceu comigo? Nunca fiz mal a ninguém!, Por que é que não aconteceu aos outros?».

A segunda fase é a da revolta. As pessoas atingidas começam a ficar com raiva de todos e, até, de Deus. Nesta fase é natural que surjam alterações do sono, do apetite ou do humor.

A terceira fase é a da depressão, em que a pessoa começa a revelar tristeza pela perda que teve.

Finalmente, em termos de luto, surge a última fase: a da aceitação. Nelson Carvalho diz que pode levar dias, meses ou anos até que se chegue a este ponto, mas as pessoas acabam por aceitar a morte do seu ente querido, embora nunca o esquecendo.

Em resumo. Mais ou menos doloroso, o que o psicólogo considera importante é que as pessoas que sofreram perdas de familiares ou amigos passem por estas fases, mais ou menos rapidamente. «O que importa é que o luto tem de ser feito, para que a pessoa possa reorganizar a sua vida psicológica», conclui Nelson Carvalho.
 
 

 
 
Anete Marques Joaquim
 
in Jornal da madeira

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