O homem do ‘sangue mágico’ que salva bebés

Ao longo de 56 anos fez quase mil doações de sangue. James Harrison já ajudou 2,2 milhões de bebés australianos a nascer saudáveis.

Ele não é o Homem do Braço de Ouro, do realizador Otto Preminger, que em 1955 esteve nomeado para três Óscares. Não é Frank Sinatra no papel de Frank Machine, um viciado em heroína com aspirações a baterista de uma banda famosa. Ele é o "homem do braço de ouro" para os 2, 2 milhões de bebés que já ajudou a salvar desde que começou a doar sangue aos 18 anos. Sim, milhões. James Harrison possui um tipo de sangue raro que tem possibilitado a cientistas australianos fabricar uma vacina administrada em grávidas ou recém-nascidos como forma de prevenção da doença de Rhesus (ver caixa).

Harrison, que em 2003 recebeu uma medalha do Guinness por, até àquela data, ter doado 480 litros de sangue, deve atingir até ao final deste ano um total de mil doações. Um número que só é possível por, em 1954, ter decidido começar a partilhar o seu Rh negativo.

Foi precisamente nessa altura que, ao analisarem o seu sangue, os médicos descobriram qualquer coisa especial no plasma deste australiano. O sangue de Harrison produz um anticorpo que permitiu aos cientistas desenvolver a chamada vacina anti-D, que faz que milhões de mães australianas estejam agradecidas a este reformado de 74 anos por terem tido bebés saudáveis. A sua própria filha, Tracey, é uma delas.

A vontade de ajudar e um seguro de vida de um milhão de dólares (730 mil euros) que foi feito em seu nome levaram-no a assinar todos os documentos necessários para que fosse submetido a vários tipos de testes, que permitiram a criação e a comercialização da vacina na Austrália. Só em 1965, 96 bebés australianos morreram vítimas da doença de Rhesus. Dez anos mais tarde, o número anual de mortes baixou para 34, graças à vacinação.

O motivo que levou este homem da costa central a tornar-se um recordista mundial na doação de sangue é fácil de entender. Com apenas 14 anos, foi submetido a uma operação ao peito, tendo sobrevivido à custa de transfusões de 13 litros de sangue. Terão sido, aliás, essas transfusões a originar o aparecimento do anticorpo.

Depois de três meses no hospital em recuperação, decidiu que também ele queria ajudar a salvar vidas. Esperou até ter idade suficiente e a partir daí nunca mais parou. Sempre que está apto para uma nova doação, apanha o comboio para Sydney e dirige-se ao banco de sangue da Cruz Vermelha.

Harrison acha que há "um bocadinho" dele em todos os bebés vacinados. Mas existem outros dadores que contribuem para esta causa. Nessas pessoas, que têm de ter sangue Rh negativo e estarem impossibilitados de ter filhos, o aparecimento do anticorpo tem de ser provocado com injecções do tipo Rh positivo.

Enquanto uns dizem que o sangue de Harrison é "mágico", outros acham que o que faz não é assim tão extraordinário. Joy Barnes, amiga do dador, pertence ao primeiro grupo. Por duas vezes, antes de a vacina ter começado a ser comercializada na Austrália, não conseguiu levar a gravidez até ao fim. Hoje, agradece a James Harrison por se ter comprometido a ajudar a ciência. "Sem ele nunca conseguiria ter um bebé saudável."

in dn.sapo.pt

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