O Sono da Criança: “Diz-me como dormes e eu dir-te-ei quem és”

 

O sono, como todos os equilíbrios da vida, reflecte o equilíbrio total da criança, em particular da sua vida afectiva e relacional.
A neurociência de hoje sustenta que as capacidades psíquicas consubsantiadas nas emoções, nos sentimentos e na consciência derivam do equilíbrio homeostático, fundamentalmente biológico. Por isso dizemos, muitas vezes, que grão a grão , o bebé constrói o seu sono.

 

É corrente associar-se o nascimento de um bebé à “tortura” do sono, que os pais vão passar a sentir “na pele”.Ora isto não é obrigatório e acaba por não acontecer muitas vezes.

 

O sono é um equilíbrio biológico fundamental, mas é um equilíbrio frágil, que se constrói progressivamente nos primeiros meses de vida .Tem relação com a maturação cerebral, dos neurónios corticais ( e daí a sua relação com a idade gestacional, isto é se é um bebé pré-termo ou ” de tempo”), e com o estabelecimento de múltiplas conexões entre as células do sistema nervoso ( sinapses).

 

O sono do feto, na sua alternância imobilidade/actividade é exactamente o dos prematuros que entretanto tiveram de nascer. Sabemos, depois, que no primeiro mês de vida o bebé pode dormir em média 16-18 horas por dia e já nesta fase podemos identificar os muito ou pouco dorminhocos.

 

Porém, mais do que o número de horas de sono, é o modo como o bebé controla e organiza os seus estádios (vigília/sono) que nos permitem caracterizar, logo com horas de vida apenas, o quem é cada bebé. Através da NBAS (“Neonatal Behavior

 

cada bebé de organizar os seus estádios de sono/vigília, e a sua habituação a estímulos exteriores que lhe vai permitir adormecer sem ligar à algazarra da sua festa de baptizado por exemplo Esta escala permite-nos com acuidade avaliar as diferenças e o quem é quem cada bebé.

 

É esta regulação que permite a um bebé de um mês dormir cinco a seis horas e a partir dos 3 meses, nove horas ou mais em cada noite. O bebé vive ao ritmo do seu relógio interior, contribuindo para isso primordialmente, os seus neuro-reguladores cerebrais.

 

È através do núcleo supraquiasmático, numa engenharia química regulada por genes, pela produção de melatonina e de popipéptidos reguladores que se estabelece a arquitectura do sono, designadamente do sono REM e do sono não REM.

 

Mas para além desta química complexa da neuro-regulação, existe um fantástico modelo relacional projectado à vida do bebé e com ele à vida da família.

 

O estabelecimento e a manutenção de padrões estáveis de sono nocturno é da maior importância para a criança e para os pais; para a criança , um sono adequado de noite é uma pré-condição essencial para um bom alerta durante o dia e para uma boa resposta a interacções sociais e outros estímulos ambienciais.

 

De facto estabelecer um ritmo e estar acordado de dia e dormir de noite, é uma importante aquisição do bebé; de acordo com Schaffer, torna muito mais fácil viver com ele…

 

Há que ser realista e ter a noção que de facto, 20-30% dos bebés e crianças pequenas têm problemas de sono. Mas as causas podem ser tão variadas como problemas perinatais, temperamento do bebé, amamentação, stress familiar, modos de adormecer, fases do desenvolvimento motor do lactente, muitas mais.

Mais do que tentar consertar um problema de sono na criança, que desarranja toda uma família que no dia seguinte irá trabalhar ensonada e irritada, há que prevenir a instalação desse problema e aí é essencial a filosofia “touchpoints”.

Se um bebé de 4 meses que até aí dormia celestialmente, passa a não adormecer como até então ou a acordar infinitas vezes em cada noite, os pais vão pedir umas pequenas gotas milagrosas para repor os anteriores comportamentos sono-vigília de modo a poderem descansar durante a noite.

 

Precisamos então desse outro modelo, para perceber as alterações do relógio, as mutações inexplicáveis, enfim, para conseguir ler através da janela que é o comportamento humano. O modelo” touchpoints” ensina-nos então que é aos quatro meses, quando o bebé começa a ficar extasiado com tudo o que passa a ver à sua volta que faz com que se “esqueça ” de dormir.

 

Do mesmo modo, cerca do ano de vida, o envolvimento fantástico do bebé para dar os primeiros passos, essa excitação que é deslocar-se sozinho, não deixa obviamente que o bebé “perca tempo” em adormecimentos ou sonos. A filosofia “touchpoints” permite-nos entender o comportamento e assim intervir adequadamente no apoio à parentalidade.

 

Se por um lado é melhor ser realista e achar que se o bebé acordar várias vezes é normal, também há que ser flexível e entender que não há soluções perfeitas, que no entanto não deverão passar pelas tais gotas milagrosas.

 

E, depois desta se ter construído, já será mais fácil lidar com episódios relacionados com as fases do seu desenvolvimento crescente ou intercorrências fáceis de interpretar.

 

É fundamental assumir que esta autonomia “aprende-se” porque se educa, numa atmosfera de paixão.

 

Aprender a dormir de noite é, resumindo, uma tarefa relacionada com a maturação do sistema nervoso central, com o temperamento do bebé, e com a aprendizagem; e o sono é o reflexo do equilíbrio global da criança.

 

Enfim, o sono é uma janela do desenvolvimento humano por onde prescutamos o modo de ser, isto é, o comportamento de cada bebé. Este comportamento é a sua “linguagem” e é, por sua vez, esta linguagem que tem de inspirar a nossa comunicação com o bebé e com a sua família.

 

Se desde que o bebé sai da maternidade, tiver um ambiente calmo, com rotinas e rituais, como o banho antes da hora de dormir, a canção de embalar ou mais tarde a história antes de adormecer (e não até que o adulto adormeça!), o pequeno urso ou outro objecto de transição, o adormecer sozinho sem ser ao colo ou na cama dos pais, irá certamente adquirir uma autonomia do sono.

 

 Dra. Fernanda Torgal-Garcia,
Pediatra do Desenvolvimento

 

João Gomes-Pedro,
Director do Departamento da Criança e da Família do Hospital de Santa Maria
Investigador e Professor Catedrático

in Médicos de Portugal

Written By
More from

O leite materno

O leite materno é, sem dúvida, o melhor alimento para o recém...
Read More

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *