O temperamento do seu filho

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“És igual ao teu pai: para adormecer era um castigo!” ou “Também não gostas que se aproximem muito de ti, a tua mãe esperneava de imediato quando era assim pequenina como tu!”.
Quem de nós ainda não se deparou com observações semelhantes, sobretudo de familiares,

 

em relação ao temperamento do nosso bebé? Basta retrocedermos às primeiras horas de vida do nosso filho para ouvirmos um “É a cara do pai” ou “Tem a boquinha da mãe”. Depois destes e de outros traços físicos, primeiramente enunciados, seguem-se, à medida que o bebé se desenvolve, observações acerca das características de personalidade do bebé.
O que entendemos, então, por temperamento? Segundo os autores Alexander Thomas e Stella Chess (1977), temperamento é o modo característico da pessoa de abordar ou reagir a pessoas ou situações. Assim, o temperamento é um conceito deveras útil para os pais na medida em que estes poderão avaliar, prever e compreender as reacções do filho com uma crescente facilidade.
De acordo com o pediatra T. Berry Brazelton (2006), os pais saberão assim quando o bebé está a agir de acordo com o seu “eu usual” e quando não está. Por exemplo, o bebé poderá não estar a agir de acordo com o seu “eu usual” quando está doente, quando está mais agitado (quantos bebés não se ressentiram com a agitação característica de quadras festivas, como o Natal?) ou quando está iminente um salto desenvolvimental.
Existem nove componentes na avaliação do temperamento do bebé:

1. Nível de actividade: como e quanto o bebé se movimenta;
2. Rítmica ou regularidade: a previsibilidade dos ciclos biológicos de fome, sono e eliminação;
3. Aproximação ou afastamento: como o bebé responde inicialmente a estímulos novos, tais como um brinquedo, alimentos ou pessoas novas;
4. Adaptabilidade: quão facilmente uma resposta inicial é modificada perante uma situação nova ou alterada;
5. Limiar de responsividade: que quantidade de estimulação é necessária para evocar uma resposta?;
6. Intensidade de reacção: quão vigorosamente o bebé responde;
7. Qualidade do humor: o bebé é positivo ou negativo nas suas reacções?;
8. Distractibilidade: quão facilmente um estimulo irrelevante pode alterar ou interferir com o comportamento do bebé;
9. Tempo de atenção e persistência: quanto tempo é que o bebé dedica a uma actividade e a mantém perante obstáculos.

Estes componentes foram identificados graças a um estudo longitudinal desenvolvido por Alexander Thomas, Stella Chess e Herbert Birch, que acompanhou 133 bebés até à idade adulta, o Estudo Longitudinal de Nova Iorque (NYLS).
Os nove componentes acima referidos deram, posteriormente, origem a três grandes padrões de temperamento:

1. Criança fácil
– Tem um humor de intensidade ligeira a moderada, geralmente positivo;
– Responde adequadamente à novidade e à mudança;
– Desenvolve rapidamente horários regulares de sono e alimentação;
– Aceita facilmente novos alimentos;
– Sorri a estranhos;
– Adapta-se facilmente a novas situações;
– Aceita a maioria das frustrações com pouca rabugice;
– Adapta-se rapidamente a novas rotinas e às regras de jogos novos.

2. Criança difícil
– Manifesta frequentemente humor intenso negativo; chora muitas vezes e alto; também se ri alto;
– Responde mal à novidade e à mudança;
– Dorme e come com irregularidade;
– Aceita lentamente novos alimentos;
– É desconfiada com estranhos;
– Adapta-se lentamente a novas situações;
– Reage às frustrações com birras;
– Ajusta-se lentamente a novas rotinas.

3. Criança de aquecimento lento
– Tem reacções de intensidade moderada quer positivas quer negativas;
– Responde lentamente à novidade e à mudança;
– Dorme e come com mais regularidade do que a criança difícil mas com menos regularidade do que uma criança fácil;
– Revela uma resposta inicial moderadamente negativa a novos estímulos (um primeiro encontro com uma pessoa nova, um local ou uma situação);
– Desenvolve gradualmente prazer por novos estímulos após exposições repetidas e sem pressão.

De acordo com os autores do estudo longitudinal, 40% das 133 crianças eram consideradas crianças fáceis, 10% crianças difíceis e 15% crianças de aquecimento lento. No entanto, 35% das crianças não se enquadravam em nenhum dos três grupos, sendo antes uma mistura de dois ou de todos.
Se a Joana tivesse participado neste estudo, ela seria uma mistura dos três grupos. Por exemplo, tem um humor de intensidade ligeira a moderada, geralmente positivo (criança fácil), reage às frustrações com birras (criança difícil) e desenvolve gradualmente prazer por novos estímulos após exposições repetidas e sem pressão (criança de aquecimento lento).
Refira-se igualmente que a categoria de “criança fácil” não é sinónimo de ausência de “problemas” desenvolvimentais ou de sucesso na vida adulta, tal como uma “criança difícil” não está destinada ao ostracismo ou a comportamentos desviantes.
De acordo com os autores acima enunciados, a chave para um ajustamento saudável é o grau de (melhor) ajustamento, isto é, o encaixe entre o temperamento da criança e as exigências/constrangimentos ambientais com os quais a criança se depara no seu dia-a-dia.
Assim, quando os pais reconhecem que o seu bebé age de um determinado modo não por preguiça, vontade ou perrice, mas principalmente devido ao seu temperamento, têm menos tendência a sentirem-se culpados, ansiosos, rígidos e impacientes. Assim, poderão avaliar, prever e ajudar a criança a adaptar-se ao contexto envolvente. Por exemplo, uma criança difícil necessita de uma ambientação mais prolongada à creche do que uma criança fácil.
O temperamento, como já referimos acima, é inato. Mesmo no útero, os fetos demonstram em parte características de personalidade, através dos níveis de actividade e frequências cardíacas. Este facto foi demonstrado por estudo desenvolvido por Costigan&Johnson (1996), estudo esse que contou com relatos de futuras mães sobre a actividade dos seus filhos in útero.
Para além da sua natureza inata, o temperamento é igualmente considerado estável, se bem que factores ambientais, como os cuidados parentais, poderão provocar alterações no temperamento do bebé. Por exemplo, o modo como a mãe se sente em relação aos seus diferentes papéis (mãe, esposa, filha, trabalhadora), afecta o temperamento da criança. Numa análise de dados do estudo longitudinal mencionado neste texto, as mães que estavam insatisfeitas com o seu emprego ou que estavam em casa permanentemente, tinham mais tendência para demonstrar intolerância, desaprovação ou rejeição em relação ao comportamento dos seus bebés de 3 meses, e as crianças “rejeitadas” estavam mais aptas a tornarem-se “crianças difíceis”. No entanto, a desaprovação não é necessariamente negativa. Num estudo desenvolvido em 1997 por quatro estudiosos, Park, Belsy, Putman e Crnic, crianças pequenas, primogénitos do sexo masculino, que tendiam a ser mais tímidas, tinham mais probabilidades de permanecerem desse modo aos 3 anos de idade, se os pais aceitassem bastante bem as reacções da criança. Se os pais eram mais críticos e pressionavam os seus filhos para novas situações, estes tendiam a tornar-se menos inibidos. Em suma, o que este estudo sugere é que os pais não precisam de aceitar passivamente o temperamento das crianças. Por vezes, ao tornarem-se mais “intrusivos” e menos “sensíveis”, eles poderão impulsionar a criança a ultrapassar determinados traços com vista a uma maior e melhor adaptabilidade aos diferentes contextos de vida.

Em suma, temperamento é a predisposição inata, relativamente estável e sensível a aspectos do meio ambiente, da criança agir perante os estímulos com os quais se depara bem como o modo como os processa.
Existem nove componentes na avaliação do temperamento do bebé bem como três grandes padrões de temperamento. Mais do que três grupos de classificação do temperamento, poderíamos sugerir um quarto grupo, pois que uma grande parte dos bebés manifestam traços dos diferentes grupos.
O temperamento do bebé reveste-se de uma importância fulcral para os pais e educadores da criança uma vez que funciona como que um barómetro de como a criança reage perante os variados factores do meio circundante: a presença de estranhos, a aceitação de novos alimentos, os padrões de sono, entre muitos outros.
Se para nós, pais, é essencial que os nossos filhos venham a desenvolver uma personalidade o mais saudável e adaptativa possível, é igualmente importante estarmos atentos à forma como o temperamento dos nossos filhos se manifesta. Por exemplo: O nosso filho gosta de brincar com as demais crianças ou prefere brincar sozinho?; O nosso filho reage negativamente a pessoas estranhas ou sorri-lhes com facilidade?.
Penso que uma das formas que está ao nosso alcance e que seguramente funciona é dar espaço e tempo ao bebé. O facto da criança preferir brincar sozinha não significa que ela tenha tendência para se isolar. A partir do momento em que tal começa a interferir com a sua sociabilidade, aí sim, poderemos assumir uma atitude mais activa, por exemplo, convidando alguns amiguinhos para brincarem com ela em sua casa, o espaço por excelência em que ela se sentirá segura o suficiente para “arriscar” novos comportamentos.
Se o nosso filho reage negativamente a pessoas estranhas, importa dar-lhe espaço e tempo, tornando as aproximações pequenas e não súbitas, suaves e não forçadas.
Muitas vezes penso no temperamento como sendo o nosso tempero. Imaginem um tempero a mais (por exemplo, sal a mais), sob a forma de pressionarmos a criança a algo para o qual ela ainda não se encontra preparada…o resultado não será, concerteza, positivo! Quer para nós, pais, mas sobretudo para a criança.

E que experiências é que vocês, pais, têm relativamente ao temperamento dos vossos filhos?

Dra Sofia Sousa
Psicóloga Infantil
Especialista doBebe.com
http://acegonhacorderosa.blogspot.com/

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