Obsessões pós-parto

imagesCAPGIE78

imagesCAPGIE78

O nascimento de um filho é um acontecimento pautado pela alegria pura e bem-estar. Mas…será mesmo assim? Ou este conceito comporta tantas excepções que acaba por ser apenas culpabilizante para um conjunto muito elevado de mulheres surpreendidas por elevados sentimentos de ansiedade e depressão após o parto?

De facto, o nascimento de um filho é um elevadíssimo agente de stress, ou seja, é um acontecimento que implica um esforço elevado de adaptação do nosso organismo. Desde logo, o stress fisiológico, que advém de hormonas alteradas, sonos trocados e até regime alimentar modificado. Depois o stress que advém das dúvidas que se geram a propósito de se ser uma boa mãe ou pai, da necessidade de compatibilização de diferentes papeis familiares e sociais, da acomodação de um novo elemento numa configuração familiar que estava estabilizada, das dúvidas quanto ao que fazer perante várias reacções do bébé. E, sobretudo, como consequência de tudo isto e muito mais, a montanha-russa emocional que pode levar do topo da felicidade e optimismo ao vale profundo de ansiedade e mesmo depressão, com uma rapidez estonteante e sem razões visíveis que nos escudem e tranquilizem.

Do lado das emoções negativas que surgem após o nascimento encontramos, seguramente a mais conhecida, a depressão pós-parto, e a sua variante mais suave habitualmente chamada de baby blues. Menos conhecida é a ocorrência de uma perturbação obsessivo-compulsiva pós-parto (POC pós-parto), com efeitos devastadores sobre a mãe e sobre a sua relação com o bebé e que apresenta uma elevada incidência simultânea com a depressão pós-parto – estima-se que entre 4% a 8% das mulheres que dão à luz desenvolvam ou agravem simultaneamente depressão e perturbação obsessivo-compulsiva. Um pouco impressionante, sobretudo se tivermos em conta as ideias cor-de-rosa geralmente associadas ao nascimento de um filho…

De uma forma geral, é normal as mães preocuparem-se com os seus filhos, com o seu bem-estar e com a possibilidade de algo lhes poder acontecer – algo que faz parte integrante do imenso amor que lhes dedicam. No entanto, na POC pós-parto, as mães são assaltadas por pensamentos recorrentes, que lhes surgem inopinadamente, originadores de extrema ansiedade e com uma elevada dose de irrealismo, relacionados, na sua maior parte, com a possibilidade de acontecer alguma tragédia ao bebé e/ou de a própria mãe lhes poder fazer mal. Na tentativa (vã, infelizmente) de controlar estes pensamentos e a ansiedade que criam, as mães refugiam-se em comportamentos excessivos, autênticos rituais para exorcizarem a elevada angústia destes pensamentos: lavagens excessivas, verificações compulsivas, organização rígida de objectos… Infelizmente também, e muito particularmente quando os pensamentos rodam em torno da possibilidade (absurda) de poderem, de alguma forma, fazer mal ao seu filho, de uma forma involuntária ou inconsciente, algumas mães tornam-se muito reservadas e contidas na sua relação com o filho, por medo de que os pensamentos que as assaltam se possam tornar realidade, o que pode abalar de uma forma muito significativa a relação mãe-filho e, pior do que isso, o próprio desenvolvimento emocional da criança.

Sem que se saiba muito bem porquê, o surgimento ou agravamento de sintomatologia POC, de uma forma geral, parece ter uma ligação forte a alterações hormonais, com especial relevância na altura da primeira menstruação e no pós-parto:
1317936908 OCD
 
Este simples facto permite uma maior atenção preventiva nos momentos-chave de fortes alterações hormonais da vida de uma mulher. No caso do pós-parto, por exemplo, o risco é maior em mulheres com um historial prévio de problemas do foro psicológico, doença orgânica, complicações na gravidez e/ou parto e em mulheres com mais do que 1 filho.

Mas muito mais importante do que a mera atenção a um possível risco, com vista a uma intervenção precoce, foi demonstrado recentemente que uma acção simples, num contexto de psicoterapia de grupo inserida em cursos de preparação para o parto, e que visa explicar o mecanismo desta perturbação ansiosa e técnicas que permitem regulá-la, é o suficiente para reduzir significativamente a incidência deste tipo de problemas. Por isso, e desde já, instamos as nossas leitoras que possam estar grávidas ou terem acabado de ter um bebé, a informarem-se sobre a perturbação obsessivo-compulsiva. Para que possa usufruir do seu bebé com toda a tranquilidade e alegria que ambos merecem!

Autora: Madalena Lobo
Psicóloga Clínica Especialista do Portal doBebe.com
Directora Geral da Oficina de Psicologia
1logo final_alta_res_sem_fundo_com_glow
www.oficinadepsicologia.com
http://www.facebook.com/oficinadepsicologia
?

Written By
More from

Salada de Chourição Mini

Ingredientes (para 5 pessoas): • 1 chourição Mini • 1 kg de...
Read More

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *