Os casamentos são à prova de bebés?

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Os dias parecem diferentes; os momentos de esperança aumentaram de frequência, em contraponto com a nostalgia e o enfado; cresceu a energia física e mental, que fazia emergir projectos para a vida, saídos de inusitados arquivos mortos e à revelia da idade; melhorou a comunicação no casal, embora mais monopolista nos temas
. Este bebé veio, realmente, revitalizar o casamento… dos avós.
Virá a suceder algo semelhante com os seus filhos, há pouco recém entrados no clube dos pais, ou os bebés poderão vir a desempenhar, mais agora que dantes, um protagonismo desafiante à solidez dos casamentos?

A resposta a esta questão é, como todas as outras reflexões sobre o casamento, seus obstáculos à estabilidade ou factores de reforço ao seu edifício, uma função de dados casuísticos e da análise aos elementos que se apresentam como ameaças ou apoios. No caso vertente impõe-se estimar as ameaças.
Assumindo que falamos de um casamento que não tenha resultado de uma resposta equívoca a um relacionamento sem futuro, ou de um acto gratuito de mera exibição social – qualquer destes, parece, em crescendo de popularidade – e que a decisão de ter um filho foi reflectida, partilhada e mutuamente desejada pelo casal, unido há, pelo menos mais de um ano, os factores de eventual desestabilização do casamento pela vinda do bebé cairão, provavelmente, dentro de uma ou várias destas categorias de fenómenos:
– Cansaço e inadaptação às tarefas associadas ao cuidado do bebé (aleitamento, fraldas, ritmos de sono, preocupações com saúde, gestão do tempo; partilha de tarefas);
– Alterações no relacionamento afectivo e sexual (diminuição do desejo feminino, dificuldades com a imagem física, medo de nova gravidez, “ciúmes”, menos disponibilidade para o diálogo, falta de intimidade e rejeição relativa por parte do marido);
– Ausência de tempos lúdicos, coarctação da liberdade individual e redução da atenção no casal, e
– Emergência de conflitualidade pelo aumento da ansiedade interpessoal e pelas frustrações quanto às expectativas dos supostos papéis de cada um.
Para enfrentar estas dificuldades, se sentidas, e não transformar o sonho da maternidade num prenúncio de falência do casamento, imputando, mesmo que “inconscientemente”, as culpas ao bebé, com todas as consequências prejudiciais daí advindas, é necessário que o casal compreenda a natureza das contrariedades que defrontam e procure o conhecimento, o entendimento e a determinação para lhes resistir. Este pacote de competências pode e deve ser procurado no bom senso individual, na reserva de perseverança que a decisão de serem pais deveria ter edificado e, a par do aconselhamento dos mais próximos com experiências semelhantes, num apoio psicológico especializado.

 Por simples dedução poderá verificar-se que o hipotético casal de pais do início da prosa, com muitas ou poucas crises relacionais por causa do nascimento dos seus filhos, conseguiu chegar… a “ netos”. E, certamente, gostariam de transferir para a descendência, integrada na memória histórica, a “arte” de vencer os conflitos no casal – fossem eles despertados, ou não, pelo advento de um bebé. Mas isso é quase uma impossibilidade, porquanto existe uma miríade de factores, uns aleatórios, como a personalidade da própria descendência e a natureza dos cônjuges, e outros, mais dependentes da conjuntura afectiva, social e económica em que a prole seja gerada, com especial relevo para a qualidade da sintonia no desejo de serem pais.

De qualquer modo aceita-se aqui que a história familiar dos pais possa ter alguma influência na história familiar dos filhos: se há, para o bem e para o mal, uma importante reprodução afectiva, cultural e económica nas famílias, os valores e princípios envolvidos na gestão dos afectos também se reeditam.

E, entre eles, o modo como lidar com os filhos e os embaraços que lhes estão associados pode ter um papel fundamental no casamento. Não será de descurar, portanto, neste particular, o ditado: Casa de pais, escola de filhos.

Os casamentos são à prova de bebés? É bom que assim seja, mesmo que para que isso suceda se tenha que lutar com algum ardor em batalhas que não eram, de todo, antes imaginadas. Até porque é muito importante que os bebés que vêm ao mundo se sintam, eles sim, à prova de casamentos!
 

Dr. Marcelino Mota
Sexólogo
Colaborador do Portal dobebe.com

 

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