Pais que substituem mães

Em Portugal, há cada vez mais homens a substituir as mulheres no período pós-parto. A mãe cumpre as seis semanas de licença obrigatórias por lei, mas depois passa a estafeta ao pai. Não é desapego; é a vida profissional que não lhe facilita outra fórmula para a maternidade. E é a marca de uma sociedade que já não se compadece com a distribuição de tarefas por identidade de género.

Quando a mulher anunciou: “Tens de ficar tu com o bebé”, João Machado, bancário, achou que ela estava a brincar. Não estava. E proporcionou-lhe “a melhor experiência” da vida dele. No Banco é que o assunto “pareceu uma heresia”.
“Não obstante a sociedade portuguesa ser dominada por um certo machismo, temos assistido a uma evolução positiva, com a tomada de consciência dos homens para a importância de dividir tarefas, sobretudo para que ambos possam conjugar a vida pessoal, profissional e familiar “, afirma, ao JN, o sociólogo Paquete de Oliveira. Esta alteração comportamental, sustentada pelo “cruzamento de vários factores culturais”, encontra suporte na nova legislação (ver caixa), mas muitas empresas teimam em desconhecê-la.

“Quando disse no banco que iria gozar a licença de parentalidade, o assunto pareceu uma heresia”, recorda João Lobo Machado, 48 anos, sobre o momento em que experimentava a paternidade pela quinta vez, a primeira em que decidira gozar a licença. “Expliquei que a minha mulher, profissional por conta própria – trabalha com próteses dentárias – teria menos possibilidades, naquela altura, de impor um período de interregno na profissão, pelo que tomáramos a decisão de ser eu, escudado pelos privilégios de estar integrado numa empresa há 22 anos, a ficar em casa com a bebé. Responderam-me que teriam de consultar a legislação, porque nunca tinham tido tal pedido”.

O episódio ocorreu na Lisboa de 2006 e, desde então, o bancário não tem memória de que tenha sido repetido por colegas. E lamenta. “Tenho pena de não ter usado a licença com os meus filhos todos. Foi a melhor experiência da minha vida. É tão importante para o equilíbrio do agregado que devia ser obrigatório”.

O número de pais que gozam a licença em vez da mãe está a aumentar, mas ainda é um número magro. Nos últimos quatro anos, foram concedidas licenças a mais de 300 mil mulheres e menos de dois mil a homens. Mas a tendência será para aumentar, nota Paquete de Oliveira. “Não tem só a ver com a evolução cultural que deriva da formação académica, mas também com o desemprego, a precariedade laboral. A natalidade ainda é um obstáculo no acesso das mulheres ao mercado”.

Jorge Forjaz Pereira, arquitecto de 40 anos, sabe-o bem. Em 2003, viu-se confrontado com a inevitabilidade de ter de tomar conta das gémeas que vieram integrar um clã que já compreendia dois filhos. “A minha mulher trabalha no ramo imobiliário e teve de voltar ao escritório”. A aventura foi “duplamente difícil”, mas tão gratificante” que, diz, “não entendo como não há mais homens a fazer o mesmo”. Os amigos acharam a atitude “arrojada”, mas não lhe copiaram os passos. Apesar disso, é ele o primeiro a dizer que as coisas mudaram: “Passear com bebés nos parques de Lisboa já não é coisa de mulheres; vêem-se cada vez mais homens”.

in JN

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