Pedro Sena-Lino: «O conto representa um mercado extraordinário»

As histórias reunidas no livro «Princesa, Príncipes, Fadas e Piratas com Problemas» poderão desfazer o eterno «final feliz» das histórias infantis?
O final feliz é útil em termos de crescimento dos primeiros leitores: se viverem a infância a ler finais felizes, talvez passem a adolescência à procura dos finais menos felizes…! O que me parece mais importante é abordar temas e conflitos, mais do que o final, que são sonegados às crianças, porque ficam apenas no limbo do azul/cor-de-rosa narrativo: a morte, a perda, a deficiência. Por isso fizemos questão que o essencial fossem personagens com problemas.

Se a escolha dos piratas e princesas acaba por ser pacífica, a escolha do tema Vampiros é no mínimo corajosa. Receou oferecer este tema aos escritores?
Não duvidámos um segundo. Na verdade a colectânea estava planeada há quase dois anos, muito antes da mania vampírica actual. A Porto Editora e eu próprio achámos desde logo que o mercado nacional precisava de vampiros portugueses e em português. Não duvido que esta será a primeira obra de várias que trabalham o tema em profundidade.

Apesar do tema Vampiros invadir as livrarias mundiais, a verdade é que a nossa literatura é quase insignificante na abordagem a este fenómeno. Porque?
É uma questão cultural. Cada cultura procura e gera as suas figuras de interdito, as suas personificações do medo. Durante muito tempo tivemos a figura da moira, entre medo e fascínio; ou outra figura, marcadamente negativa, como a da bruxa. Há outros, que quem sabe poderão dar origem a outras colectâneas. Mas de facto pela nossa cultura mais marítima que terrena, esses medos fechados aparecem muito pouco. Sou da opinião que seremos dos povos que têm menos sanidade simbólica, que menos trabalho cultural fazem sobre as próprias feridas. Se os Estados Unidos tivessem tido uma guerra colonial como a nossa, os próximos cem anos de Hollywood e televisão seriam ocupados pelo tema.

Ao reunir grandes nomes da literatura nacional nestas obras, abre também espaço para os contos, um género que também é ignorado pelo público português.
Estou convencido que o conto representa um mercado extraordinário e que pode ser largamente expandido. Com as dificuldades de tempo com que os leitores de hoje se defrontam, o conto representa uma espécie de unidade mínima de tempo real de leitura. Penso que esta ideia devia ser trabalhada pelas editoras, e mais, devia ser fruto de uma campanha nacional.

Quais são os segredos essenciais para termos bons contos?
Essa sua pergunta é-me feita todos os dias pelos meus alunos nos cursos de Escrita Criativa, e procurei responder-lhe nos dois manuais que publiquei sobre o tema na Porto Editora. Mas desde já, duas coisas parecem-me ser as duas mãos de um bom conto: um enredo inquietante, e um estilo ousado e próprio. Infelizmente em Portugal ainda achamos que boa literatura é bom vocabulário, frases barrocadas e construções sintáticas em talha dourada: uma história é para contar, e o estilo não é um trono pessoal, é uma forma de servir o leitor.

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