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Pontes imaginárias

Pontes imaginárias
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Todos sabemos como as crianças se apegam a determinados objectos – a uma chucha, a uma fralda de pano ou a um boneco de peluche. E também sabemos como protestam quando são separadas desses objectos de estimação. É frequente a imagem de uma criança que arrasta consigo uma fralda de pano, já a desfazer-se e em precaríssimas condições de higiene, mas que é agarrada como o mais precioso dos bens.
Tal como é frequente a imagem de um protesto inconsolável quando alguém lhe tenta retirar a fralda. E nem é preciso que haja intenção – basta que a fralda fique esquecida no momento de sair de casa para que o choro se desate e só pare quando a fralda é devolvida…
É comum que seja uma fralda de pano, mas pode ser qualquer outro objecto, desde que seja suave. Para a criança, esse objecto é uma reminiscência do calor que emana do peito e dos braços maternos: ao agarrar a fralda junto a si é como se se aconchegasse no corpo da mãe. E apega-se assim à fralda ou ao peluche precisamente para compensar a ausência da mãe: é como se a sentisse próxima apesar da separação.
É entre os quatro e os seis meses que, normalmente, se inicia este comportamento: e assim acontece porque é nesta idade que a criança se começa a movimentar no mundo externo, sem se separar completamente do seu mundo interno. Daí que estes objectos sejam chamados de transição – funcionam como pontes entre os dois mundos em que a criança se situa.
Calcula-se que mais de metade das crianças tenha uma fraldinha de estimação (ou equiparado), cujo cheiro reconhece e de que recusa separar-se, mesmo quando se está a desfazer e quando deixa muito a desejar em termos de higiene: oferecer-lhe uma nova ou lavada não resulta. A criança desenvolve uma ansiedade extrema: é que a fralda proporciona segurança, funcionando ao mesmo tempo como um substituto materno e como um suporte na conquista de autonomia.
É o conforto que a criança retira desse objecto que lhe permite aceitar a ausência da mãe e transitar para o ambiente externo, de uma creche por exemplo.
Seja a fralda ou outro objecto qualquer, a verdade é que constitui uma ferramenta que permite à criança afastar-se das suas figuras de referência e desenvolver uma existência mais independente. Porque pode ser levado para qualquer lado, proporciona conforto imediato sempre que a ansiedade surge. Logo, a criança fica menos dependente do cuidador.
Os objectos de transição desempenham ainda um papel fundamental na identificação da criança consigo própria e com os outros: com a fralda ou o peluche, ela aprende a representar o "outro", por oposição ao "eu", aprende que aquele objecto é distinto, separado, de si própria, o que é mais um passo na construção da sua autonomia.
Não obstante este importante papel da fraldinha de estimação a verdade é que os pais se preocupam. E preocupam-se porque a relação que a criança estabelece com o objecto se assemelha a uma relação de dependência vai com ele para todo o lado, protesta de uma forma descontrolada se não o tem, se o perde ou se o tentam tirar, recusa um substituto, não se acalma até recuperar a posse.
Tudo neste cenário parece excessivo: a relação da criança com o objecto e a sua reacção à privação do objecto. Daí os receios de dependência. No entanto, esta é uma situação normal e na maioria das situações a criança liberta-se do seu objecto de transição à medida que ganha autonomia emocional. Não há uma idade certa, mas mais cedo ou mais tarde acontece.
Muitas vezes ocorre em simultâneo com a entrada no sistema escolar, quando a própria criança se sente crescida demais para andar com a fralda, o peluche ou a chucha. Há, porém, crianças com maior dificuldade em desligar-se. Precisam da ajuda de pais e educadores, mas essa ajuda deve assumir a forma de colaboração e não de imposição.
Numa primeira fase, há que aceitar que a criança leve o seu objecto de estimação para o infantário, deixando-a usá-lo quando sentir necessidade. Quando já estiver bem integrada e mais segura, pode ser sugerido que guarde o objecto – primeiro numa malinha, por exemplo, que a criança pode ter consigo, depois num local um pouco menos acessível, como o cabide. Mas sempre sem lhe negar o acesso – progressivamente será a criança a ter menos necessidade dessa ponte imaginária com o mundo seguro de casa e da mãe.
Uma gestão difícil
Nem sempre é fácil lidar com a existência de um objecto de transição, mais eis algumas regras que podem ajudar:
• Não retire o objecto sem avisar previamente a criança: mesmo que seja apenas para lavar, nunca o faça às escondidas – converse com a criança, peça-lhe colaboração e explique-lhe que voltará a tê-lo e que, apesar de o cheiro ser diferente, logo ficará igual;
• Se tiver de substituir o objecto, escolha outro igual e coloque-o em contacto com o ambiente da criança – a cama, por exemplo – para que vá adquirindo o mesmo odor e textura, de modo a que a criança não estranhe a mudança;
• Aceite a existência desse objecto como uma etapa natural no desenvolvimento infantil, mas sem o valorizar demasiado;
• Se sentir que a dependência é exagerada, vá diminuindo os momentos em que a criança usa o objecto mas procurando envolver a própria criança nesse processo.

in Fonte: FARMÁCIA SAÚDE – ANF

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