“Uma geração que não pode ouvir um ‘não’ é manipuladora”

Entrevista a Carlos Poiares, psicólogo.

Até que ponto é importante não negar a filhos, menores de idade, a experiência de umas férias de Páscoa longe de casa, como as que anualmente levam milhares de alunos a Lloret del Mar?

Os miúdos, nessa idade, estão numa fase de transição, de estruturação e de afirmação perante os seus pares. Essas experiências são importantes para o seu desenvolvimento. Mas convém não esquecer que, para muitos deles, é também um confronto com experiências que nunca tiveram. E isso acarreta alguma pressão sobre eles. É o seu primeiro momento de autonomia relativamente aos pais.

Permitindo as férias, que precauções cabem aos pais?

Os pais devem acautelar a viagem: saber quem vai estar, quem vai ajudar, que rede de apoio existe. Porque, nesses casos, o desejo de testar os limites pode chegar a situações dramáticas. Tem de haver responsabilidade e empenhamento dos adultos, sejam os pais ou quem organiza.

Quando alguma coisa corre mal, há alguma responsabilidade que possa ser imputada aos pais?

O importante, do ponto de vista dos pais, é o cuidado a ter com o que pode ser um efeito de compensação. Dar aos filhos uma determinada quantia de dinheiro para realizar este tipo de viagem não pode servir para compensar as ausências que tiveram durante o ano. Não há compensações materiais para esse tipo de falta.

O excesso de permissividade é prejudicial aos miúdos?

A tentativa de converter em permissividade a presença e a atenção que não tiveram é. Revela deficiência no desenvolvimento da relação entre pais e filhos. E a ideia que os pais às vezes também têm de não quererem reproduzir nos filhos o modelo de educação severa que receberam, quando não é bem medida, também é.

A permissividade é o melhor atalho para os excessos?

Fala-se em sexo, droga e álcool nestas viagens. Não sei se é assim ou não. Mas parece-me que essas experiências são como abrir a tampa de uma bilha de gás. Os miúdos são confrontados com situações a que não estão habituados, não têm autogestão, nem autodeterminação. E o controlo remoto feito pelos pais através do telemóvel não basta. Por vezes, o excesso de permissividade significa que não houve prevenção.

Que tipo de prevenção?

Para este miúdos aquilo é a passagem ao acto pela primeira vez. É preciso prevenção e muita preparação por parte dos pais. Prevenção significa o conhecimento dos riscos que eles correm.

É inevitável que um desfecho infeliz gere um sentimento de insegurança em toda a comunidade?

O que aconteceu, independentemente das causas, vai gerar na malta toda que esteve lá um enorme sentimento de insegurança. É importante que os miúdos tenham experiências quando estão sozinhos, mas de forma organizada e não apenas com instintos compensatórios.

Às vezes é importante saber dizer "não" ou pode abdicar-se disso?

É muito importante saber dizer não! Por muito difícil que ele seja de dizer e de ouvir. Se não dissermos não, vamos criar uma geração que, na idade adulta, não irá tolerar a frustração. Querer e ter é errado, porque não são coincidentes. E perante esse não, os miúdos não podem exercer o seu poder reivindicativo, manipulatório. Alguns pais pagam uma viagem destas com grande dificuldade por medo que os miúdos possam ser ostracizados por parte dos colegas se não forem. É muito importante saber dizer não. Mas não é um não porque não; é um não explicado. Uma geração incapaz de ouvir um não, que deprime quando o ouve, é uma geração de manipuladores.

in JN
 
 

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