Rua Sésamo fez 40 anos

A Rua Sésamo nasceu há 40 anos nos EUA e marcou gerações de crianças em todo o mundo. Em Portugal, assumiu como principal missão ajudar a baixar as altas taxas de reprovação no básico que se registavam em 1989 e colmatar a pouca cobertura que então tinha o pré-escolar.
Quando o Poupas começou a falar português corria o ano de 1989 e o ensino pré-escolar tinha uma cobertura pouco superior a 30 por cento.

Por outro lado, as taxas de reprovação na primeira e segunda classes rondavam os 40 por cento.

Estes indicadores, aliados à preocupação com os muitos imigrantes que chegavam então a Portugal e com os países africanos de língua portuguesa (PALOP) acabaram por centrar a versão lusa nas questões da leitura e escrita.

Mas os denominados «poderes da criança» não foram esquecidos.

«A criança ser capaz. Lembra-me o que o Obama diz: yes, we can e era um bocadinho essa ideia que queríamos transmitir», recorda, em declarações à Lusa, a directora pedagógica da versão portuguesa da série norte-americana, Maria Emília Brederode Santos.

Por outro lado, «também foi chamada a atenção dos adultos para a educação pré-escolar e [para a necessidade de] atender especialmente às crianças de meios mais desfavorecidos», acrescenta.

Mas Maria Emília diz que também aprendeu com a Rua Sésamo: com a versão turca, por exemplo, percebeu que «salamaleque» tem origem nos cumprimentos usados pelos árabes.

A responsável pela programação infantil da RTP 2, Teresa Paixão, era a guionista responsável pelos curtos documentários da Rua Sésamo e lembra o «pequeníssimo papel que teve» na série mas que a «influenciou devastadoramente, no melhor sentido da palavra».

«Era um formato internacional ocidental, que defendia, e que continua a defender, a igualdade entre as pessoas, independentemente da crença, raça ou credo, a democracia, a igualdade e fraternidade, a honestidade e que o bem-estar comum é algo bom», comenta.

Sempre no canal 2 da RTP, Teresa Paixão já acompanhou a ‘descendência’ portuguesa da Rua Sésamo: o ‘filho’ Jardim da Celeste e a «espécie de neto que é a Ilha das Cores».

O realizador Rui Nunes realizou as segunda e terceira séries da Rua Sésamo portuguesa e também percebeu a importância do programa quando conheceu uma idosa açoriana que aprendeu a ler e a escrever quando via o programa com o neto.

«Foi um facto que nem sequer foi equacionado pela própria série», que era dirigida a crianças entre os três e os cinco/seis anos, afirma.

Também conheceu uma criança de um ano que surpreendeu com a primeira palavra que disse: não foi nem mãe, nem pai, mas Poupas, uma das personagens principais da série portuguesa.

Para Teresa Paixão, a qualidade e a quantidade nas áreas da dobragem e da animação em Portugal também foram estimuladas pela Rua Sésamo.

Mas Rui Nunes ainda hoje dá uma «utilização prática» à Rua Sésamo, que transformou numa espécie de «cartão-de-visita»: quando inicia aulas com novos alunos prime o botão do comando do aparelho do DVD da sala para lhes apresentar «pelo menos um programa» feito por si e que eles gostaram.

Na televisão aparece o Ferrão, o Poupas ou a Titã, que são imediatamente reconhecidos e admirados pelos alunos.

Também facilmente reconhecível é a música do genérico, que teve autoria luso-americana de Joe Raposo, lembra Maria Emília Brederode, entre outras recordações de um programa «extraordinariamente bem sucedido e que chegou na hora certa».

A Rua Sésamo faz hoje 40 anos nos Estados Unidos. Em Portugal fez 20 anos no passado dia 6.

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