Se não queres que o teu filho veja TV, tens de ir mais cedo ao infantário

No jardim-de-infância de Francisca, uma menina – imaginária – de três anos, não há televisões nem brinquedos convencionais, o plástico não existe e a comida é biológica. Francisca brinca com paus e pinhas, faz pão, modela cera. Não trabalha, brinca. Tudo a um ritmo natural, como se estivesse em casa. Ao invés de Francisca, o jardim-de-infância existe. Chama-se São Jorge e está em Alfragide, mas é quase um negativo dos outros infantários.

Para a maioria das crianças portuguesas, a vida simples e tranquila de Francisca, sem competições nem actividades programadas, é uma realidade estranha. Um estudo da DECO divulgado ontem revela que 73% das crianças com um a dois anos vêem televisão nas creches, e a percentagem sobe para 90% nos jardins-de-infância (entre os três e os cinco anos).

"Desconhecia esses dados, mas só posso criticá-los afincadamente", diz Maria João Santos, do Espaço para a Saúde da Criança e do Adolescente (ESCA). Para esta psicóloga educacional, os pequenos até aos dois anos "têm muita necessidade de explorar o ambiente", e por isso "não faz sentido nenhum" pô-las à frente de um ecrã. Quando são um pouco mais crescidas, a coisa muda, mas mesmo assim a televisão só deve servir para entreter. "Ver por ver também não faz sentido nenhum", acrescenta.

Maria João Santos afirma que "o ideal", para os filhos até aos três anos, seria ficarem em casa "ou pelo menos não socializarem tão intensamente". A partir dessa idade, a sociabilização recomenda-se porque favorece o desenvolvimento e prepara os filhos para o que aí vem.

 

E o que aí vem, às tantas, é que os filhos se transformam em pais com horários de trabalho prolongados e constrangimentos económicos. Cerca de duas em cada cinco famílias consultadas pela DECO (2884 inquéritos) têm problemas para pagar o infantário. Quase um terço das crianças passa mais de nove horas por dia nas creches e, mesmo assim, 27% dos pais gostariam que estas abrissem aos sábados.

"A minha única crítica é a inflexibilidade dos horários", protesta a mãe de Carmo, uma bebé de dois anos inscrita no Grémio de Instrução Liberal, em Lisboa. Os progenitores trabalham e por isso a filha passa, por norma, as tais nove horas fora de casa.

A creche abre às oito mas a partir das 09h30 os educadores já não aceitam crianças. "Entendo que tem a ver com a organização das actividades quando já são mais crescidas, mas quando têm menos de um ano é ridículo. Às vezes tínhamos de acordar a Carmo para que fosse dormir para a creche", recorda a mãe.

Carlos Moral promete que o seu filho de cinco anos só vê filmes e mexe no computador aos fins-de-semana. Pelo menos em casa. "Lá fora" o ecrã é o recurso habitual antes das dez e depois das 18h00 – ou seja, fora do horário dos educadores. "Se não queres que o teu filho veja TV, tens de ir mais cedo ao infantário", resume Carlos.

in ionline.pt

Written By
More from

Thomas Beatie, o “homem grávido”, anuncia segunda gravidez

Numa entrevista que deu ao  canal americano ABC, Thomas Beatie, transexual que ficou conhecido...
Read More

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *