Todos os dias há um bebé português que vai nascer a Espanha

Tinha de nascer e em Badajoz estava o hospital mais próximo. Depois dela, mais de 800 bebés de Elvas e de Campo Maior seguiram o exemplo. Tornaram-se na primeira "geração ibérica". Uma geração cuja primeira palavra que ouviu foi bienvenido e para quem a fronteira, no futuro, ficará muito esbatida. Mesmo assim, os pais da Margarida, do Tomás e dos manos Joana e Gustavo, ouvidos pelo PÚBLICO, asseguram que o Pai Natal português continua a marcar pontos entre os mais pequenos e que tradições como a dos Reis Magos ficam mesmo só do lado espanhol.

Margarida tem quase três anos e meio e hesita entre os desenhos animados estridentes que enchem a sala e os diferentes animais cujos sons reproduz, à medida que os alinha em forma de serpente. Enquanto isso, a mãe, Sónia Pedro, conta a história atribulada do nascimento da filha – que está já muito longe dos 2,650 quilos do primeiro dia de vida. Sónia foi a primeira portuguesa a dar à luz em Espanha ao abrigo de um acordo estabelecido entre as autoridades dos dois países, na sequência do polémico encerramento da maternidade de Elvas e de outras unidades pelo ex-ministro da Saúde Correia de Campos.

E, como em quase todas as estreias, encontrou problemas burocráticos. "Foi tudo uma confusão. Parece que a Margarida quis mesmo ser diferente." Isto porque a menina – que "parecia uma coisinha" – nasceu às 00h45 do dia 17 de Junho em Espanha, o que significa que em Portugal eram 23h45 do dia 16. No registo, não conseguiram que ficasse o dia 16 e, durante algum tempo, comemoraram as duas datas. "Mas isso podia baralhar a Margarida e agora resignámo-nos ao dia 17", diz Sónia, de 33 anos, técnica no Agrupamento de Escolas n.º 2 de Elvas.

Margarida é "espanholita"
Quanto a ser portuguesa ou espanhola, diz que a filha é natural de Badajoz mas tem nacionalidade portuguesa. O melhor é tirar as dúvidas com a pe-quena: "És portuguesa ou espanhola?". Margarida morde o lábio e arregala os olhos brilhantes. Sorri e responde de forma automática que é "espanholita" – uma brincadeira a que se habituou.

Margarida tem um irmão mais velho, o Ricardo, que nasceu em Elvas. Sónia não pensa ter um terceiro filho. Contudo, se o futuro lhe reservar essa surpresa, não tem dúvidas de que voltaria a cruzar a fronteira.

Badajoz é ali ao lado, a 15 quilómetros. E, como ela, 90 por cento das pessoas preferem o Hospital Universitário Materno-Infantil da cidade espanhola, apesar de lhes ser dada a possibilidade de terem os bebés no hospital de Portalegre (a 60 quilómetros) ou no hospital de Évora (a 90), onde dos 1428 bebés que nasceram em 2008 apenas 24 eram de Elvas.

As grávidas são acompanhadas em Elvas e apenas vão a Badajoz às 20 semanas fazer uma ecografia morfológica e uma consulta. Um quarto privativo para cada mãe com um sofá reclinável para o pai ou outro familiar poder pernoitar são características únicas numa unidade pública e, por isso, quem por ali passa só tece rasgados elogios.

O hospital de Elvas – onde, em 2005, último ano antes do encerramento, nasceram apenas 264 bebés – decidiu também aproveitar e reconverter as instalações da maternidade: um corredor onde a sala de partos tinha paredes-meias com os quartos. "Agora temos consultas para as grávidas e cursos de preparação para o parto", explica Rui Cambóias, enfermeiro da unidade e responsável pela comunicação, que defende que o encerramento foi uma boa opção, tendo em conta que a Organização Mundial de Saúde recomenda que as maternidades tenham pelo menos 1500 partos ao ano.

Um número que é em muito ultrapassado do lado de lá. "Temos mais de 3000 partos por ano e, até ao final de Outubro, nasceram aqui 814 crianças portuguesas", conta Marcelino Borrallo, director clínico do Hospital Materno-Infantil. Além disso, "a taxa de cesarianas é de 21 por cento"; em Elvas era de 36. Sobre os custos dos partos, o Estado português paga por cada um, em média, 1800 euros ao hospital de Badajoz; em 2005, cada parto em Elvas custava 2500 euros.

"Nasce quase um bebé português por dia no nosso hospital e este número não perturba em nada o nosso funcionamento. Ficamos muito felizes por poder oferecer um serviço de excelência e as grávidas portuguesas são acompanhadas com o mesmo padrão de qualidade que as nossas", acrescenta Marcelino Borrallo. Sobre as complicações com o registo, assegura que "foram apenas iniciais" e que "as fronteiras são psicológicas".

Dupla nacionalidade
Um pequeno embrulho revela as bochechas rosadas de Tomás e os lábios que parecem fazer beicinho. Nasceu em Badajoz a 16 de Outubro deste ano com 3,750 quilos. "Agora já tem mais de cinco quilos e só mama", conta a mãe Patrícia Cardoso que, descontraidamente, dá de mamar enquanto conta a história e vigia o filho mais velho, João Pedro. Além de "não ter nada a apontar à maternidade", Patrícia, de 32 anos e funcionária numa pastelaria, encontra várias vantagens em ter ido a Espanha. "Registei-o nos dois lados e pode ficar com dupla nacionalidade. Como as coisas estão más, acho que é uma boa oportunidade se for estudar ou trabalhar para Badajoz."

Durante a gravidez, teve alguns problemas com o cordão umbilical, mas encontrou "todo o apoio" nos profissionais espanhóis, que também a convenceram a ter o parto com epidural, uma coisa que "em Elvas não havia" e da qual "desconfiava". "O pessoal até brincava e perguntava-me: te gusta sufrir?" Mesmo assim, "se pudesse optar gostava que tivesse nascido cá como o irmão. Afinal é a terra dele", diz, enquanto afaga a farta cabeleira negra do bebé que contrasta com os olhos que parecem teimar em ficar azuis como os da mãe. Apesar de querer que ele aprenda castelhano e de ter escolhido um pediatra espanhol, insiste em tradições nacionais. "Aqui é tudo muito português e no Natal não ligamos aos Reis Magos como eles."

Joana é mais uma das portuguesas que vieram ao mundo em Badajoz. Tem menos de um mês. Nasceu no dia 7 de Novembro, com 3,300 quilos, e continua frágil no carrinho onde uma mantinha com folho rosa não deixa dúvidas de que é uma menina. E tem um mano com apenas 15 meses que nasceu lá a 21 de Agosto de 2008. A mãe, Cláudia Afonso, de 29 anos e funcionária do Exército, diz estar "muito habituada ao espanhol" e sublinha: "É uma hora em que somos todas grávidas e em que queremos todas o mesmo. Senti-me sempre muito apoiada. É uma linguagem universal".

Contudo, preferiu registar os dois filhos como naturais de Elvas. Sobre as vantagens de terem nascido do lado de lá, refere "o poderem vir a ter a nacionalidade", mas lamenta que aquilo que faz cruzar a fronteira seja sempre a situação do lado de cá estar má. "Nós precisamos deles até para ir ao pediatra, mas isso não significa que adoptemos as tradições."

in http://www.publico.clix.pt/

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