Tornando-se mãe:a chegada do primeiro filho.

mãe

Bradt em McGoldrick (2001), após 25 anos de trabalho com famílias, tem certeza de que não existe nenhum estágio que provoque mudança mais profunda ou que signifique desafio maior para a família nuclear e ampliada do que a adição de uma nova criança ao sistema familiar. Essas mudanças se dão no âmbito profissional,familiar e é claro, na relação entre o casal.
Segundo Minuchin (1982), com a chegada de uma criança o sistema deve efetuar as mudanças necessárias para passar de um sistema de dois para um sistema de três, ou seja, o funcionamento da unidade conjugal deve se modificar para satisfazer os requisitos da paternidade, mesmo que seja difícil para os pais contemporâneos. Como ele diz:
“O nascimento de uma criança caracteriza uma mudança radical na
organização familiar. As funções dos esposos devem se diferenciar para
satisfazer as exigências da criança, em termos de cuidado e alimentação e
para manejar as restrições assim impostas ao tempo dos pais.
Habitualmente, as incumbências físicas e emocionais para com a criança
requerem uma mudança nos padrões transacionais dos esposos. Aparece
um novo conjunto de subsistemas na organização familiar, tendo as
crianças e os pais novas funções.” (pág. 26).
Bradt relata que a dificuldade que uma pessoa pode ter de mudar de papel para ser
um progenitor e continuar a crescer como cônjuge contribui para uma desigualdade de
relacionamentos e constitui uma ameaça à intimidade do casal.
Segundo ele uma união que desenvolveu intimidade é mais capaz de responder ao
desafio da paternidade e de integrar a mudança permanente de vida que a
paternidade traz.

Para este tema Bradt define intimidade como sendo:
“(…) um relacionamento carinhoso sem fingimento, uma revelação
sem risco de perda ou ganho por qualquer uma das partes. É dar e
receber, uma troca que aumenta porque facilita a consciência dos eus, de
suas diferenças e semelhanças. É uma elaboração discriminante e
encorajadora das facetas de cada pessoa. Ela cria e sustenta o sentimento
de pertencer a, ao mesmo tempo em que percebe a singularidade de cada
indivíduo. A intimidade encoraja a continuidade e é a energia
sustentadora do movimento humano através do tempo. Ela permite que
não pertençamos apenas ao presente, mas também aqueles que vieram
antes e aqueles que vêm depois (em McGoldrick, 2001, págs. 212 e 213)”.
A presença de uma criança na casa poderá impedir que os pais tenham privacidade,
mesmo em seu próprio quarto. Existe a ameaça de tempo excessivamente curto e
níveis de preocupação ocupando a mente do casal para que eles possam ter
intimidade sexual. Contudo é o excessivo envolvimento da família nuclear nos
relacionamentos progenitor-criança que poderá corroer os relacionamentos conjugais.
Para os casais cujo vínculo era mais de fusão do que de intimidade, a chegada de um
filho aciona o triângulo da família nuclear, pondo em risco a estabilidade do
relacionamento dos pais, com a posição de proximidade ameaçada pelo bebê. A
presença e o comportamento do bebê podem fazer com que um dos pais se aproxime
dele, deixando o outro distante. Comumente, o triângulo muda, de modo que o pai
fica na posição distante e a mãe e a criança se aproximam.

Para alguns casais distantes, o bebê representa uma proxximidade desejada com o
outro cônjuge. O envolvimento da criança no processo proximidade-distância do
triângulo paterno pode ser suficientemente bom para sustentar o crescimento e o
desenvolvimento do bebê.
A criança, muitas vezes, é vista como um estabilizador do casamento. Algumas delas
acabam tendo um comportamento pacificador em sua vida. Outras crianças nem um
pouco pacíficas, podem estabilizar um casamento através de seu comportamento
perturbador.
O que podemos perceber é que o filho não é garantia de continuidade do casamento e
tão pouco do fim deste.Uma outra questão que influencia e preocupa os pais é a de
quem vai cuidar do bebê. Na maioria das vezes, mesmo para os casais mais
modernos, a chegada de um filho, tende a assinalar uma reversão a uma divisão de
papéis mais tradicional, as mulheres tendem a parar suas atividades profissionais, por
um período de tempo, para o cuidado quase que total do bebê que acabou de nascer.
Tanto que na sociedade em que vivemos existem leis (licença maternidade
remunerada) que permitem que as mulheres se afastem do trabalho por um período
de tempo, que varia de quatro a seis meses, para que a mulher, e agora mãe, possa
cuidar do seu filho. Já para os pais, só é permitido o afastamento do trabalho por no
máximo cinco dias. Apesar do esforço social, os homens, mais do que as mulheres,
pertencem ao mundo do trabalho fora de casa, e as mulheres, mais do que os
homens, pertencem ao lar, com a tarefa de cuidar e educar as crianças.
É essencial trabalhar o reequilíbrio das responsabilidades entre o casal. Alguns homens
e mulheres acham que quando se tornam pais, a mulher não deve trabalhar. Muitas
vezes, com isso, surgem conflitos entre o casal, com relação às necessidades de quem
vêm em primeiro lugar, o trabalho, os compromissos, etc. Normalmente nunca surge a
questão de quem está mais bem qualificado para cuidar da criança. Mas a suposição,
quase sempre, é a de que a esposa é o progenitor que deve ficar em casa. Poucos
casais compartilham igualmente as tarefas domésticas e as responsabilidades pelos
cuidados dos filhos.

Ainda não existe nenhuma preparação dos homens para as tarefas muito mais
complicadas e duradouras de criar os filhos. Os pais raramente têm alguma
experiência com crianças pequenas, de modo que eles precisam aprender a arte da
intimidade com bebês. Isso, basicamente, requer um tempo sozinho com a criança;
quando suas esposas estão presentes, pode ser extremamente difícil para eles
assumirem a responsabilidade primária por um filho ou desenvolver laços afetivos
estreitos.
Existem alguns pais que estão descobrindo o prazer e o desafio de se tornarem um
pai-progenitor participante, ativamente envolvido na esfera doméstica, um igual em
relação a esposa e um pai completo para os filhos. Existem menos homens
descobrindo a paternidade no casamento do que no divórcio.
A típica noção do bom pai sempre foi: “Ele é um pai responsável, sempre trabalhou duro e sustentou sua
esposa e filhos”.
Durante a transição para a paternidade, para o tornar-se uma família com filhos
pequenos, os pais precisam assumir a pesada responsabilidade de criar os filhos, ao
mesmo tempo em que tentam manter seu próprio relacionamento conjugal.
1.4 Espaço para os filhos:
A importância que o casal dá a chegada do filho é determinante no espaço que ele
terá na família. O ambiente em que as crianças nascem pode não ter nenhum espaço
para elas, ou existir espaço, ou ainda ter um vácuo que elas ¨devam¨ preencher.
Muitos fatores determinam o contexto existente na família no momento do nascimento.
Todo o espaço familiar disponível pode já estar ocupado com outras atividades ou
relacionamentos. Pode ocorrer também dos pais contemporâneos darem mais
importância ao trabalho, resultando em menos espaço nas vidas dos adultos para ser
ocupado com os filhos.
No outro extremo estão os adultos muito envolvidos com a esfera doméstica. A grande
proximidade nos relacionamentos pais-criança tende a criar uma falta de clareza
geracional e sobrecarregar o relacionamento pais-criança.

Os filhos podem ser usados para preencher um espaço na vida dos adultos, que para
Bradt e Moynihan em McGoldrick (2001) é frequentemente resultante da perda de seus
próprios pais, de uma falta de intimidade conjugal ou da não-participação na esfera
não-doméstica de vida, por escolha ou fracasso. Clinicamente, para esses autores, isso
pode emergir como a família focada na criança, em que ela se torna uma substituição
para a realização ou lugar não obtidos no mundo, ou para a perda do relacionamento
com um membro da família que está morto ou fora de contato (rompimento).
O que Bradt e Moynihan em McGoldrick (2001) chama de autêntico processo familiar
centrado na criança começa a operar antes do nascimento desta e é somente
amplificado pela presença e curso de vida.
O fracasso da criança em avançar de forma bem-sucedida através dos marcos
desenvolvimentais psicológicos intensifica o processo familiar e permite que ela ocupe
o lugar de uma criança “problemática” bem cedo na vida. A história habitualmente
revela múltiplas consultas a especialistas em saúde infantil, que começam muito cedo
na vida da criança.
Nesses casos, os terapeutas de família não estão entre os profissionais que foram
consultados. Normalmente, os pais investem intensamente na criança e não expressam
nenhuma outra preocupação, relatando muitas vezes que o problema é da criança e
com a criança e não uma dificuldade familiar ou com os pais.

3.4 O Casamento:
A chegada do bebê trás uma transição, que não é simples ou espontânea, a de casal
para família. Esta mudança exige ajuste e negociações em diversas áreas do
casamento. Na maioria das vezes, tanto homens como mulheres têm expectativas
pouco realistas em relação ao que a vida deveria ser, quando se tornam pais. A forma
como o casal passa o tempo junto, as diferenças no cotidiano de cada um e na atitude
em relação à educação dos filhos, sexo, finanças, cansaço e tarefas domésticas podem
criar certa tensão entre eles enquanto se adaptam a nova condição de pais. É
importante que o apoio seja maior que a tensão no casamento.
“Muitos casais (…) se sentem tão sobrecarregados com as
responsabilidades profissionais e com os cuidados com o bebê, e tão
exaustos com a privação de sono, que brigam por qualquer motivo
(Rosenberg, 2004, pág. 152)”.
O casal muitas vezes tem dificuldade de lembrar que o casamento é tão importante
quanto o bebê. O objetivo deve girar em torno de estabelecer uma família na qual
cada um se sinta respeitado, amado e valorizado.
O casal vai se tranqüilizando na medida em que vai descobrindo que esse estágio da
vida dos pais não é eterno. O primeiro ano passa, o bebê precisará cada vez menos de
atenção e conforto e o casamento aos poucos vai voltando para o seu lugar.
Para que a intimidade sexual retorne, a mulher tem de estar emocional e fisicamente
preparada e ter tempo suficiente sem o bebê para desejar ficar com seu marido.
Quando o corpo se recuperar e o bebê tiver um padrão de sono
vagamente previsível, o sexo voltará a ser atraente. (Rosenberg, 2004,
pág. 161).

Segundo Rosenberg (2004), muitos pais de primeira viagem sentem ciúmes do
relacionamento da esposa com o bebê. Antes de o bebê nascer, a pessoa mais
importante na vida da mulher provavelmente era o marido e quando vem o bebê,
muitas vezes, o marido não se sente a vontade com o fato do filho ocupar aquele lugar

de honra. Acontece também de muitas mulheres concentrarem-se tanto no bebê que
acabam ignorando o marido.
“Quando somos mães pela primeira vez, é tentador transformar o
bebê no centro de nossas atenções, mas manter nosso casamento também
é muito importante quando ainda há amor (Rosenberg, 2004, pág. 173)”.
Muitos pais de primeira viagem ficam chocados ao constatarem que estão brigando em
vez de desfrutarem a companhia um do outro. Privação de sono, preocupações
financeiras e a confusão geral na vida facilitam descontar tudo em quem amamos.
Embora o nascimento do filho possa aproximar o casal, na maioria das vezes tem
efeito contrário, sobretudo nos primeiros meses. Os dois precisam se adaptar as
crescentes exigências e a diminuição do tempo para estarem juntos. O peso das
responsabilidades pode ser alarmante, mas é importante lembrar que o objetivo é ter
uma família feliz.
De acordo com Rosenberg (2004), a adaptação mais difícil que o casal tem que fazer é
a de se tornar pais pela primeira vez. Em nenhum outro momento do casamento a vida
a dois muda tão total e bruscamente.

in http://www.cincopsicoterapia.com
Fernanda Vanni

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