Tratados à “tinha” há 50 anos correm maior risco de cancro

Há 50 anos, tiveram "tinha". Irradiaram-lhes o cabelo para tratar as lesões no couro cabeludo. Em 1161 pessoas observadas, 2,2% têm hoje cancro da tiróide, uma incidência maior do que no resto da população, devida às radiações. Procuram-se mais.

António Elias Carmo Alves lembra-se que era uma espécie de capacete, um aparelho como "aqueles que as senhoras usam para secar o cabelo" nos salões. "Aquecia um bocadito". Passado um tempo, o cabelo saiu-lhe às peladas. "Ficava uma penugem que os meus pais tinham de tirar com uma pinça, pêlo por pêlo". Foi há 58 anos. E tudo por causa do gato da avó. António vivia numa rua bem frequentada. É uma excepção da altura. Os outros miúdos que tiveram de andar "carequinhas" eram essencialmente de zonas pobres: ilhas, bairros industriais e piscatórios, onde as condições de higiene eram nenhumas e a "tinea capitis" grassava.

Doença de pele benigna, mas extremamente contagiosa, a "tinha" passava de uns para outros até através de cabelos perdidos. No Porto, muitos acabaram por passar pelo Dispensário de Higiene Social, na Carvalhosa. Para serem submetidos às radiações. Foi aí que José Teixeira Gomes encontrou um registo com 5358 nomes de crianças e as doses de radiação a que foram sujeitas. A literatura dava conta de uma maior probabilidade de neoplasias na zona da cabeça e pescoço. E alguns doentes dele com cancro tiroideu confirmaram-lhe que contraíram tinha enquanto pequenos.

O desafio foi encontrá-los todos, estudar a prevalência de doenças associadas e descobrir alterações genéticas. Começou em 2005, no Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (Ipatimup), com uma busca difícil. Primeiro pela lista telefónica. Foram encontrados 15% das moradas, explica a investigadora Paula Boaventura.

Intensa procura

A análise de registos de unidades de saúde, da Administração Regional de Saúde e de juntas de freguesia deu mais alguma ajuda. Pouca. A maioria mudou de casa, alguns para o estrangeiro, outros morreram, outros ainda – mulheres – casaram e alteraram o nome. Sem as datas de nascimento, nem o registo civil foi útil. Do registo inicial, 1962 pessoas nunca foram descobertas. E muitas delas podem ter desenvolvido uma patologia, a acreditar nos resultados preliminares do estudo em curso. É a isso que se propõe o Ipatimup.

António foi uma das 1161 pessoas observadas. Não sabia do cancro que tinha desenvolvido por causa de um tratamento a uma doença benigna a que fora sujeito 53 anos antes. É um dos 25 carcinomas da tiróide observados no estudo do Ipatimup, 11 dos quais diagnosticados dessa forma.

Hoje, operado, António está bem, mas com terapêutica vitalícia. Lembra-se que era o único da escola que andava "carequinha". O Ipatimup encontrou-o contra todas as probabilidades, pela lista telefónica. Nem os nomes que o diferenciariam (Elias Carmo) figuravam nas páginas brancas, nem a morada tinha nada que ver com a da infância e tinha já mudado umas quantas vezes.

Maria Constança Rodrigues Vieira lembra-se da cabeça como a palma das mãos e dos "cotinhos" tirados à pinça. Tinha uns oito anos e vivia nas Caxinas, em Vila do Conde. O marido, que nem morava perto, também teve "tinha". E uns tios e um irmão. "Andávamos com um lencinho branco". Hoje, Constança anda com medicação perpétua. Tem hipertiroidismo, diagnosticado graças à carta do Ipatimup, porque as alterações até então detectadas nunca foram investigadas a sério.

Como António e Constança, ainda há dezenas de pessoas com algum tipo de patologia: carcinoma da tiróide e basocelular, melanoma, meningioma, hipertiroidismo, hiperparatiroidismo.

in http://jn.sapo.pt/

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