Um ano para andar

O tempo necessário até começar a andar pode ser explicado pelo tamanho do cérebro dos mamíferos. O homem precisa de pelo menos um ano. Para um bebé que nasça hoje, todos os dias do próximo ano serão fundamentais. Precisará dos 12 meses até dar o primeiro passo. Quando se aguentar em pé e conseguir mexer em tudo o que o rodeia, passará à fase de fazer de conta que um lápis é um avião. Até lá, o seu cérebro e as suas capacidades motoras estarão num complexo processo de desenvolvimento.

Esse processo foi alvo de estudo por uma equipa de investigadores da Universidade de Lund, na Suécia. Analisaram 24 espécies de mamíferos, incluindo o humano, tentando perceber os seus diferentes desenvolvimentos até começarem a andar. Os resultados foram conhecidos em Dezembro na publicação oficial da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, "Proceedings of the National Academy of Sciences".

Horas, semanas, meses ou um ano. O tempo até começar a andar varia entre os mamíferos. Animais com cascos andam horas depois do nascimento, os roedores e os carnívoros mais pequenos precisam de dias ou semanas, os primatas não-humanos levam meses e o homem precisa de cerca de um ano para dar o primeiro passo.

Explicação está no sistema nervoso 
Por que razão a espécie humana leva tanto tempo até começar a andar? "O primeiro passo depende essencialmente da maturação do sistema nervoso central", explica Guiomar Oliveira, pediatra e presidente da secção de Desenvolvimento da Sociedade Portuguesa de Pediatria. Essa maturação varia consoante o tempo de gestação. "Nos recém-nascidos não-prematuros ou de termo (40 semanas de gestação, em média), os primeiros passos são dados por volta dos 12 ou 13 meses". Os prematuros, nascidos antes das 37 semanas de gravidez, precisarão do tempo de prematuridade até começar a andar. Se um bebé tiver nascido seis semanas antes do tempo, aos 12 ou 13 meses precisará ainda dessas seis semanas para completar o seu desenvolvimento.

Nos primeiros tempos após o nascimento, o bebé não segura a cabeça e o tronco, tem os braços e as pernas em tensão e os seus movimentos são involuntários ou reflexos. "Só serão capazes de andar quando conseguirem segurar a cabeça e se mantiverem sentados", explica a pediatra. "Simultaneamente perdem a tensão dos membros, já podendo assim estender os braços para pegar em objectos e manter as pernas em extensão até se colocarem de pé".

Quando forem capazes de se deslocar de um modo autónomo, os braços e as mãos ficarão livres para pegar em tudo. Será o início de uma das principais fases de exploração do mundo.

"Começam por levar tudo à boca. Meses depois percebem o valor funcional das coisas", explica Guiomar Oliveira. "Mais tarde será a exploração simbólica, ou seja, fazer de conta, por exemplo, que um lápis é um avião".

A complexidade do cérebro humano é uma das justificações para que seja necessário um ano até começar a andar.

24 espécies estudadas 
Para chegar a essa conclusão, os cientistas estudaram o tempo entre a concepção e o primeiro passo em 24 espécies de mamíferos, entre os quais ovelhas, chimpanzés porquinhos-da-índia ou camelos. De seguida, analisaram os resultados com base em variáveis como o tempo de gestação, o tamanho do corpo adulto e o tamanho do cérebro adulto.

Em 94% dos casos estudados, o tamanho do cérebro reflectiu-se no tempo necessário para o seu desenvolvimento e, consequentemente, para o primeiro passo. Outra explicação foi a anatomia da espécie, ainda que identificada apenas em 3,8% dos casos. Concluiu-se que conseguir andar com os calcanhares no chão requer mais tempo, por ser um movimento complexo e exigir mais do cérebro. 

Poderia então pensar-se que um bebé que dê o seu primeiro passo antes dos 12 meses é mais avançado ou mais inteligente. A pediatra explica, no entanto, que começar a andar mais cedo não tem grande significado no neurodesenvolvimento geral.

Mas se um bebé não andar até aos 18 meses é possível que exista algum problema. "Pode ser um dos primeiros sinais de disfunção ou atraso de maturação do sistema nervoso central. Outros problemas podem revelar-se depois, como dificuldades na coordenação motora, na aprendizagem escolar, problemas de socialização ou atrasos de linguagem".

E essa poderá ser uma distinção entre a importância que o primeiro passo tem para o homem e para os restantes mamíferos. Começar a andar e começar a falar são, segundo Guiomar Oliveira, "os marcos importantes no neurodesenvolvimento, como é a idade de sentar, de pegar em objectos, de imitar, apontar ou partilhar a atenção do adulto".

Ao passar todas essas fases, resultando do complexo desenvolvimento do cérebro durante um ano, o bebé irá dar o seu primeiro passo. Iniciada a exploração do mundo, precisará só de mais uns meses para dizer a primeira palavra.

(Texto publicado na Revista Única do Expresso de 9 de Janeiro de 2010)

in http://aeiou.expresso.pt

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